"Se a minha vida é apologia contra a minha doutrina, se as minhas palavras vão já refutadas nas minhas obras, se uma cousa é o semeador, e outra o que semeia, como se há de fazer fruto?"
"Basta que havemos de trazer as palavras de Deus a que digam o que nós queremos, e não havemos de querer dizer o que elas dizem!"
Pe. Antônio Vieira (1608-1697) é um dos grandes escritores da língua portuguesa, inclusive reconhecido pelo poeta Fernando Pessoa como o "imperador da língua portuguesa". Numa poesia, Pessoa, diante do "céu [que] estrela o azul e tem grandeza", diz que Vieira, em sua fama e glória, "foi-nos um céu também". Se não é tão celebrado como Camões (se é que este ainda o é), talvez a imagem ao lado explique: uma certa ideologia necrófila criou um silêncio na expectação de converter em inexistência fictícia e, não a podendo engendrar, deseja aniquilar, ainda que em efígie, a presença imortal do Cristianismo na História. É a incorporação da inquisição de seus delírios, com seu próprio Index e seu auto de...ré (sic!).
A missa
Ainda nos dias de hoje temos o privilégio de assistir, em raras paróquias onde ainda existe, a uma missa celebrada no exato mesmo rito em que a missa do domingo da Sexagésima de 31/01/1655 foi rezada por Vieira na capela do Paço Real de Lisboa. Este período do calendário litúrgico foi alterado no novo missal, o de Paulo VI (1969), pelo que hoje vemos paramentos verdes nas igrejas, indicando o Tempo Comum. No missal anterior, o de Vieira, contudo, que se preserva no rito extraordinário, em latim, promulgado por Pio V em 1570 conforme o Concílio de Trento, já o período de setenta dias antes da Páscoa são preparatórios para a Quaresma e, por seu caráter penitencial, já se usam os paramentos roxos.
No calendário tridentino, o Ciclo Pascal se abre com o Tempo da Septuagésima, no Domingo da Septuagésima. "O conjunto do ciclo pascal", explica o missal, "coloca-nos perante o aspecto mais fundamental e mais surpreendente da nossa vida: a expiação e vitória sobre a fraqueza e o pecado dos homens, pela Redenção de Cristo". "No primeiro domingo, [rememora-se] o pecado original, com a queda de Adão (Septuagésima); a seguir, o lamentável quadro das suas conseqüências funestas, evidenciadas na malícia dos homens e no castigo do dilúvio (Sexagésima)". É nesse domingo que a leitura do Evangelho será a passagem de Lucas 8:4-15, a chamada "Parábola do semeador". "Somos terra semeada por Deus, e a palavra de Deus, semente divina, é de fecundidade infinita, contanto que a acolhamos e deixemos germinar. Encerra-se neste pensamento toda a vida cristã". Sim, "semen est verbum Dei", "a semente é a Palavra de Deus", que Vieira repetirá em vários momentos do sermão, que é uma homilia sobre esta parábola.
Podemos imaginar a cena: A procissão adentrando a capela, os paramentos roxos, com todos os preparativos ao pé do altar, e então começa a Ante-Missa, hoje chamada "Liturgia da Palavra". O intróito traz o clamor "Levanta-vos, Senhor! Por que dormis?!" (Salmo 4:23-26,2); segue o "Kyrie eleison" e a coleta (oração da assembléia) em que se reconhece que Deus vê que "em nenhum dos nossos actos confiamos". Vem a leitura da epístola, uma passagem de S. Paulo em que recapitula sua atividade missionária, confessando que sua "vida heroica a serviço da Igreja" vem do "poder divino na fragilidade humana" (2 Co 11:19-33; 12:1-9). Seguem algumas orações e vem o anúncio, "Sequentia sancti Evangelii secundum Lucam", e a leitura da passagem. "Segue-se a homilia, ou explicação da Palavra de Deus". E aqui, depois de subir as escadas do púlpito, começa o famoso sermão.
O sermão
O sermão é muito bem estruturado. Está dividido em dez seções identificadas com algarismos romanos. Após introduzir o tema da parábola (I), Vieira apresenta o problema a ser meditado: por que a semeadura, a pregação, dá pouco fruto hoje (II)? Então, considerando os elementos envolvidos na semeadura, Deus, o semeador e a terra (o ouvinte), Vieira conclui que a culpa é dos pregadores (III). Não contente com essa constatação, ele passa a investigar as causas disso, abordando cinco circunstâncias da pregação: pessoa, estilo, matéria, ciência e voz. Em cada tópico, são arrolados os respectivos problemas comuns no sermão barroco daqueles tempos mas, não obstante, em cada caso, vê exceções que não permitem fechar uma conclusão decisiva (IV-VIII). Será nas duas seções finais que Vieira, depois de manter o ouvinte (leitor) em suspensão por toda a argumentação, que, enfim, revelará a causa decisiva para a esterilidade da pregação de seus dias (IX-X), e, por que não?, de nossos dias.
Seção I
Vieira começa dizendo que gostaria que sua audiência saísse desenganada da pregação. Isso se explicará mais adiante (seções II, IX e X) pelo próprio tema dela, já apresentado nesta primeira seção: por que a pregação de hoje não dá fruto? Por que as pessoas não se convertem, isto é, não passam a pautar suas vidas pela de Cristo?
Ele começa com a passagem que fala de "sair para semear", lembrando que há pregadores missionários em terras distantes e aqueles que pregam sem sair, o que não é desvantagem alguma, considerando o que é semear com o mundo e o que é semear com Deus: "O mundo, aos que lavrais com ele, nem vos satisfaz ao que despendeis, nem vos paga o que andais. Deus não é assim. Para quem lavra com Deus, até o sair é semear, porque também das passadas colhe fruto".
No entanto, a parábola evidencia toda a adversidade que esse apostolado sofre: "Ora vede como todas as criaturas do mundo se armaram contra esta sementeira [...] A natureza insensível o perseguiu [ao semeador] nas pedras; a vegetativa, nos espinhos; a sensitiva, nas aves; a racional, nos homens". E, porque o homem é o que ama, após falar da aplicação primária desse simbolismo ao coração do homem, Vieira conclui que, "como os apóstolos iam pregar a todas as nações do mundo [...] haviam de achar homens homens, haviam de achar homens brutos, haviam de achar homens troncos, haviam de achar homens pedras", e, nesse zelo missionário, "tudo o que aqui [na parábola] padeceu o trigo, padeceram lá [na seara] os pregadores". Por exemplo, sobre a missão do Maranhão, "houve missionários afogados, porque uns se afogaram na boca do grande rio das Amazonas; houve missionários comidos, porque a outros comeram os bárbaros na ilha dos Arnãs; houve missionários mirrados, porque tais tornaram os da jornada dos Tocantins, mirrados da fome e da doença, onde tal houve, que andando vinte e dous dias perdido nas brenhas, matou somente a sede com o orvalho que lambia das folhas". Todavia, já que semeiam com Deus, "para os semeadores, isto são glórias: mirrados sim, mas por amor de Vós mirrados; afogados sim, mas por amor de Vós afogados; comidos sim, mas por amor de Vós comidos: pisados e perseguidos sim, mas por amor de Vós perseguidos e pisados". Daí que diga que "dá-me grandes esperanças a sementeira, porque ainda que se perderam os primeiros trabalhos, lograr-se-ão os últimos": "Já que se perderam as três partes da vida, já que uma parte da idade a levaram os espinhos, já que outra parte a levaram as pedras, já que outra parte a levaram os caminhos, e tantos caminhos, esta quarta e última parte, este último quartel da vida, por que se perderá também? Por que não dará fruto?"
Sim, e, no entanto, por que hoje não dá fruto?
Seção II
Nesta breve seção, Vieira reelabora o significado da parábola conforme explicada por Jesus. Por exemplo, referente aos grãos caídos na estrada, comidos pelas aves e pisados pelos homens, ele diz: "Os caminhos são os corações inquietos e perturbados com a passagem e tropel das cousas do mundo, umas que vão, outras que vêm, outras que atravessam, e todas passam; e nestes é pisada a palavra de Deus, porque ou a desatendem, ou a desprezam". Daí uma triste constatação: "Diz Cristo que a palavra de Deus frutifica cento por um, e já eu me contentara com que frutificasse um por cento. Se com cada cem sermões se convertera e emendara um homem, já o mundo fora santo". E, apesar da esperança (I), não deixa de expressar com grande impaciência o ponto principal da homilia: "Pois se tanto se semeia a palavra de Deus, como é tão pouco o fruto? Não há um homem que em um sermão entre em si e se resolva; não há um moço que se arrependa; não há um velho que se desengane; que é isto?".
Seção III
Para solucionar o mistério, Vieira passa a avaliar o que está envolvido no trabalho da semeadura e na frutificação, que é a conversão. "Que cousa é a conversão de uma alma senão entrar um homem dentro em si, e ver-se a si mesmo? Para esta vista são necessários olhos, é necessária luz, e é necessário espelho. O pregador concorre com o espelho, que é a doutrina. Deus concorre com a luz, que é a graça; o homem [o ouvinte] concorre com os olhos, que é o conhecimento". A seguir ele apresenta o primeiro argumento em defesa de Deus, que dEle não poderia vir o problema: "Pois por que não introduz Cristo na parábola do Evangelho algum trigo que se perdesse por causa do sol ou da chuva? Porque o sol e a chuva são as influências da parte do Céu, e deixar de frutificar a semente da palavra de Deus, nunca é por falta do Céu, sempre é por culpa nossa [pregadores e/ou ouvinte]". Desses últimos, Vieira defende também o ouvinte: "De maneira que o trigo que caiu na boa terra, nasceu e frutificou; o trigo que caiu na má terra, não frutificou, mas nasceu; porque a palavra de Deus é tão fecunda que nos bons faz muito fruto, e é tão eficaz que nos maus, ainda que não faça fruto, faz efeito; lançada nos espinhos, não frutificou, mas nasceu até nos espinhos; lançada nas pedras, não frutificou, mas nasceu até nas pedras [...] Pudéramos arguir ao lavrador do Evangelho, de não cortar os espinhos, e de não arrancar as pedras antes de semear, mas de indústria [i.é, engenhosamente] deixou no campo as pedras e os espinhos, para que se visse a força [daquilo] que semeava. É tanta a força da divina palavra, que sem cortar nem despontar espinhos, nasce entre espinhos. É tanta a força da divina palavra, que sem arrancar nem abrandar pedras, nasce nas pedras". Quer dizer, a Palavra é boa e a terra, apesar de suas circunstâncias, sempre responde à semeadura, deixando nascer. Mas o que nasce não dá os frutos e, daí, Vieira já começa a suspeitar de uma coisa que só poderia ser explicada pela responsabilidade do último envolvido nesse cultivo: "Sabeis, cristãos, por que não faz fruto a palavra de Deus? Por culpa dos pregadores. Sabeis, pregadores, por que não faz fruto a palavra de Deus? Por culpa nossa!".
Seções IV-VIII
A maior parte do sermão é uma análise sobre a culpa do pregador de a semeadura não dar frutos. Dentre as circunstâncias arroladas em que sobressaem as falhas do pregador, todavia, Vieira não encontra uma só que seja definitiva, pois todas comportam exceções, incusive na Bíblia. Porém, mesmo reservando a solução para as seções finais, aqui, e longamente, Vieira aproveita para criticar os problemas dos pregadores de seu tempo, que, se não resultam na esterilidade das sementes, formam um pano de fundo de graves responsabilidades sobre o qual a verdadeira culpa parecerá ainda mais ingente. É o inverso da artimanha retórica de diminuir algumas coisas para que outra pareça maior: trata-se de encarecer algumas coisas para mostrar que outra tem um preço ainda mais alto.
As cinco circunstâncias do pregador são: pessoa, estilo, matéria, ciência e voz.
a) Pessoa (seção IV)
| Ecce homo, de F.co Romero Zafra (2015) |
Porém, o profeta Jonas não tinha uma vida exemplar e sua pregação salvou Nínive.
b) Estilo (seção V)
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| Ícone ilustrando a parábola. Em inglês, "Eis que um semeador saiu para semear". As abreviações em grego (IC XC) significam "Iesous Khristos", |
Vieira conclui com uma queixa sobre o estilo complicado de muitos pregadores: "É possível que somos portugueses, e havemos de ouvir um pregador em português, e não havemos de entender o que diz?". De fato, por tais maneirismos, "se houvesse um homem que assim falasse na conversação, não o havíeis de ter por néscio? Pois o que na conversação seria necedade como há de ser discrição no púlpito?".
E, mais uma vez, todavia, houve grandes oradores cristãos, como São João Crisóstomo, o "Boca de Ouro", que obtiveram muito fruto com sua pregação brilhante.
c) Matéria (seção VI)
A crítica aqui recai sobre um modo de pregação chamado de "apostilar o Evangelho". Vieira compara esse levantamento de muitos assuntos com "quem levanta muita caça e não segue nenhuma", voltando para casa de mãos vazias. Em termos de semeadura, "se o lavrador semeara primeiro trigo, e, sobre o trigo, semeara centeio, e, sobre o senteio, semeara milho grosso e miúdo, e, sobre o milho, semeara cevada, que havia de nascer?". "Jonas, em quarenta dias, pregou um só assunto, e nós queremos pregar quarenta assuntos em uma hora?". "Há de tomar o pregador uma só matéria, há de defini-la para que se conheça, há de dividi-la para que se distinga, há de prová-la com a Escritura, há de declará-la com a razão, há de confirmá-la com o exemplo", etc. Essa unidade de matéria, contudo, não impede a variedade, contanto que seja orgânica como uma árvore:
Há de ter raízes fortes e sólidas, porque há de ser fundado no Evangelho; há de ter um tronco, porque há de ter um só assunto e tratar uma só matéria. Deste tronco hão de nascer diversos ramos, que são diversos discursos, mas nascidos da mesma matéria, e continuados nela. Estes ramos não hão de ser secos, senão cobertos de folhas, porque os discursos hão de ser vestidos e ornados de palavras. Há de ter esta árvore varas, que são a repreensão dos vícios, há de ter flores, que são as sentenças, e por remate de tudo há de ter frutos, que é o fruto e o fim a que se há de ordenar o sermão. [...] Se tudo são troncos, não é sermão, é madeira. Se tudo são ramos, não é sermão, são maravalhas. Se tudo são folhas, não é sermão, são verças. Se tudo são varas, não é sermão, é feixe. Se tudo são flores, não é sermão, é ramalhete. Serem tudo frutos, não pode ser; porque não há frutos sem árvore. Assim que nesta árvore, a que podemos chamar árvore da vida, há de haver o proveitoso do fruto, o formoso das flores, o rigoroso das varas, o vestido das folhas, o estendido dos ramos, mas tudo isto nascido e formado de um só tronco, e esse não levantado no ar, senão fundado nas raízes do Evangelho: Seminare semen.
E novamente, a suspeita da causa real: "Seminare semen" ("para semear a semente"). E, no entanto, "uma coisa é expor, outra é pregar; uma, ensinar, e outra, persuadir", e foi persuadindo, por exemplo, que Santo Antônio de Pádua fez tanto fruto no mundo.
d) Ciência (seção VII)
Estamos na Sexagésima. Como vimos acima, a missa do dia evoca as conseqüências do pecado nos dias de Noé. Em contraponto à nossa triste situação, chama nossa atenção ao apostolado de São Paulo, o qual, por sua vez, conforme a epístola (lida na missa), atribui sua força Àquele que o enviou. E aqui, o esquema do sermão, seguindo o do missal, se torna claro: o pecado, que ensejou o dilúvio, é escrutinado na perda dos grãos de trigo; e o pregador, a exemplo de São Paulo, trabalha com a força, e como vicário, do Semeador. Assim, Vieira diz escancaradamente: "Pregar é entrar em batalha com os vícios".
Porém, não se pode combater senão com as próprias armas, como Davi, que preferiu sua funda à armadura e à espada de Saul. Também os primeiros pregadores, escolhidos por Cristo, chamados a serem pescadores de homens, tiveram de recorrer a seus próprios recursos: "Notai: 'Retia sua' [suas redes]. Não diz que eram suas porque as compraram, senão que eram suas porque as faziam, não eram suas porque lhes custaram o seu dinheiro, senão porque lhes custavam o seu trabalho". Arrematando: "O pregador há de pregar o seu e não o alheio. Por isso diz Cristo que semeou o lavrador do Evangelho o trigo seu: semen suum [sua semente]" e "muitos pregadores há que vivem do que não colheram, e semeiam o que não trabalharam". Mais uma vez, a relação entre palavras e obras, mas, agora, não são as obras que dão testemunho das palavras, são as palavras que testemunham das obras. "As razões não hão de ser enxertadas, hão de ser nascidas. O pregar não é recitar. As razões próprias nascem do entendimento; as alheias vão pegadas à memória, e os homens não se convencem pela memória, senão pelo entendimento". "O que sai só da boca para nos ouvidos; o que nasce do juízo penetra e convence o entendimento". Um exemplo bíblico: cada apóstolo tinha sua própria língua, a língua de fogo que sobre ele desceu, e, embora tenham escrito todos com penas tiradas daquela mesma pomba divina, cada um tinha um estilo tal que mostra que é seu. As cartas apostólicas o mostram.
E, no entanto, o grande São João Batista, por exemplo, pregou o mesmo que o profeta Isaías.
e) Voz (seção VIII)
Enfim, Vieira relembra que os pregadores, "antigamente, pregavam bradando; hoje, pregam conversando" e que "antigamente, a primeira parte do pregador era boa voz, e bom peito". Diz ainda que muita gente nesse mundo não se convence com a razão mas com os brados. Daí que São João Batista, a voz que clamava no deserto, arrastou multidões. Daí também que, embora a razão estivesse do lado de Cristo, foi o clamor da multidão que se impôs em Sua condenação.
Mas, contra essa opinião, Jesus não clamava, mas mais falava "ao ouvido que aos ouvidos", o que "não só concilia mais atenção, mas, naturalmente e sem força se insinua, entra, penetra e se mete na alma".
Sem poder concluir nada das cinco circunstâncias, Vieira recapitula alguns exemplos que as invalidam: "Moisés tinha voz fraca; Amós tinha grosseiro estilo; Salomão multiplicava e variava os assuntos; Balaão não tinha exemplo de vida; e seu animal [a burra que falou] não tinha ciência; e, contudo, todos estes falando, persuadiam e convenciam".
Seções IX-X
O sermão entra na sua fase conclusiva com uma afirmação à queima-roupa: "Sabeis, cristãos, por que se faz, hoje, tão pouco fruto com tantas pregações? É porque as palavras dos pregadores são palavras, mas não são palavras de Deus". Ou, mais precisamente: "Pregam palavras de Deus, mas não pregam a palavra de Deus". E "se os pregadores semeiam vento, se o que se prega é vaidade, se não se prega a palavra de Deus, como não há a Igreja de Deus de colher tormenta em vez de colher fruto?". Vieira dá um exemplo escandaloso pelo poder da analogia: o Diabo tentou Jesus no deserto citando as Escrituras, e Jesus se defendeu do mesmo modo. Qual a diferença? "As mesmas palavras que, tomadas no sentido em que Deus as disse, são defesa, tomadas no sentido em que Deus não as disse são tentação". E mais: o pináculo do Templo, na igreja, é o púlpito! "As Escrituras mal interpretadas", disse, "essa é a tentação de que mais padece hoje a Igreja, e que, em muitas partes, tem derrubado dela, se não a Cristo, a sua fé". E os ouvintes, desta vez, não escapam da crítica: "Verdadeiramente não sei de que mais me espante, se dos nossos conceitos, se dos vossos aplausos!". Nenhuma surpresa, então, que "as nossas imaginações e as nossa vaidades e as nossas fábulas não tenham a eficácia da palavra de Deus": dar fruto!
Dos pregadores, irmãos seus de sacerdócio, chega a dizer que "vêm ao púlpito como comediantes" e que "grande miséria, por certo, que se achem grandes documentos [ensinamentos] para a vida nos versos de um poeta profano e gentio que nas pregações de um orador cristão". Outras indignidades são a afetação da voz, a polidez, a "derreter cristais" e "desmaiar jasmins". Mesmo como teatro, em que os atores sobem ao palco fantasiados para representar bem seus personagens, a coisa vai mal, porque um pregador se veste como religioso e fala como "não o quero dizer por reverência ao lugar". "Já que o púlpito é teatro, e o sermão é comédia, sequer, não faremos bem a figura?"
Enfim, contra essa disposição de fazer do púlpito um palco donde se tema desagradar à platéia, Vieira diz que "zombem [os ouvintes], e não gostem embora, e façamos nós o nosso ofício". "Pregar o pregador para ser afamado, isso é mundo; mas infamado, e pregar o que convém, ainda que seja com descrédito de sua fama, isso é ser pregador de Jesus Cristo". Segundo a parábola, foi por isso que Jesus não disse que o Diabo (as aves) houvesse comido as sementes caídas nos espinhos ou nas pedras, mas apenas o trigo que caiu no caminho, porque lá "pisaram-no os homens: e a doutrina que os homens pisam, a doutrina que os homens desprezam, essa é a de que o Diabo se teme. Desses outros conceitos, desses outros pensamentos, dessas outras sutilezas que os homens estimam e prezam, dessas não se teme, nem se acautela o Diabo, porque sabe, que não são essas as pregações que lhe hão de tirar as almas das unhas". "De maneira que o frutificar não se ajunta com o gostar, senão com o padecer; frutifiquemos nós, e tenham eles paciência. A pregação que frutifica, a pregação que aproveita, não é aquela que dá gosto ao ouvinte, é aquela que lhe dá pena". O que importa não é sair muito contente com o pregador, mas sair muito descontente de si: "Semeadores do Evangelho, eis aqui o que devemos pretender nos nossos sermões, não que os homens saiam contentes de nós, senão que saiam muito descontentes de si; não que lhes pareçam bem os nossos conceitos, mas que lhes pareçam mal os seus costumes, as suas vidas, os seus passatempos, as suas ambições, e enfim, todos os seus pecados. Contanto que se descontentem de si, descontentem-se embora de nós. [Como] dizia o maior de todos os pregadores, São Paulo, 'se eu contentara aos homens, não seria servo de Deus'".
Por fim, fechando duramente o sermão, dirigindo-se àqueles que só veem o púlpito como seu palco, Vieira relembra que "há tribunas mais altas que as que vemos": "Que conta há de dar a Deus um pregador no Dia de Juízo? O ouvinte dirá: 'não mo disseram'; mas o pregador? Vae mihi, quia tacui ['ai de mim porque me calei'], 'ai de mim que não disse o que convinha!'".
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| De suas tribunas, Cristo e os santos julgarão o mundo. Retábulo "O último julgamento" (c. 1446-52), de Rogier Van der Weyden. |
* * *
O sermão é em português, não em latim. Isso mostra a falácia de que não se pode entender uma "missa em latim". As partes em latim, especialmente as do Ordinário, eram entendidas pelo hábito, pelo estudo, isto é, mesmo sem se conhecer o idioma, sabe-se o que está sendo rezado em cada parte, e sabe-se, inclusive, muitas preces de cor, como o Pater Noster, o Credo, o Confiteor, etc.
Outra observação importante é a dureza com que Vieira se dirige, de fato, à própria Igreja. Muitas reformas já haviam ocorrido dentro do Catolicismo. Reforma, não revolta! Essa autoconsciência da Igreja, que vem desde a Bíblia, quando Jesus revela a presença de um traidor entre os Doze (Mateus 26:21), ou São João fala daqueles que "saíram de entre nós porque não eram dos nossos" (1 João 2:19). No Apocalipse, é visível que a Igreja estaria numa situação bem problemática ao longo das eras, especialmente no Tempo do Fim (Apocalipse, capítulos 2 e 3). Jesus mesmo se perguntara se, ao voltar, ainda encontraria fé sobre a Terra (Lucas 18:8). São Francisco de Assis, São Domingos de Gusmão, Santa Catarina de Sena, Santa Teresa d'Ávila, só para citar alguns, foram pivotais na renovação da Igreja ao longo de sua história. O teor do discurso do pe. Antônio Vieira mostra uma clara sensibilidade para os problemas de seu tempo, e uma ousada intransigência no enfrentamento deles.





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