quinta-feira, 11 de fevereiro de 2021

Somos tão científicos assim?

 
Hoje é um dia bom para nos fazermos essa pergunta. Neste mesmo dia e mês, em 1858, aconteceu um fenômeno que as pessoas "científicas" costumam relegar ao campo da superstição. Uma guria de 14 anos, com aparência de 10, dadas as condições de extrema pobreza em que vivia (morava com a família numa cela dum presídio desativado, por caridade do prefeito), asmática e com problemas de estômago, viu uma luz numa caverna, aonde se dirigiu. A região, nos Pirineus, onde isso ocorreu, tem seu dialeto próprio, no qual é chamada de gave do Pau (gave, em sua língua, são torrentes das montanhas). Lá a menina viu uma mulher a quem se referia como Aquerò (no seu dialeto, "Aquela"). Essa mulher, para resumir, ninguém menos que a Virgem Maria, mandou a franzina Bernadete Soubirous cavoucar na terra, donde surgiu mais uma torrente de água, onde, dizia a Virgem, se operariam curas. É a famosa aparição de Lourdes, na França.


OK! Superstições! Carolice! Mas antes de chegarmos a tais conclusões, tão anticientificamente, isto é, sem observação, sem hipótese a ser testada, sem experimentos, sem outros processos conduzidos independentemente, etc., a pergunta mais simples que podemos nos fazer é: como nós, pessoalmente, chegamos a aceitar algo como verdadeiro? A Ciência é um fim em si ou apenas uma de muitas formas de se chegar a um conhecimento verdadeiro? O que é mais importante aí, o meio (método científico) ou o fim (a verdade)?

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Bernadete Soubirous (foto de 1861/2)
Pois bem, e, no entanto, habemus scientiam! Se Ciência visa a verdade, como um meio para este fim; se Medicina é Ciência, então a Medicina é a ciência que pode atestar a veracidade, ou não, da tal aparição, afinal, cura é seu campo de atuação. Assim, no período de 1858-1914, registraram-se 4.445 curas milagrosas. A quantidade é massiva. Fazer uma completa investigação científica sobre cada uma seria ingente. E nem todos os miraculados, os curados, queriam se submeter a um invasivo processo de análise. Deixavam suas muletas e próteses na caverna e seguiam felizes. Todavia, dada a grande repercussão dos fenômenos, além das comissões episcopais estabelecidas para analisar não só religiosamente mas medicamente os casos, foi instituída uma junta médica (Boureau Médical) independente. Ainda não satisfeitos com duas comissões médicas, foi constituído o Comité Médical Internacional. É Medicina o suficiente para você?

O resultado: 65 casos foram confirmados (dentre o irrisório número dos que foram estudados). Um médico ateu, ganhador do Nobel de Medicina, Alexis Carrel, converteu-se imediatamente ao testemunhar diversas curas. Não foi o único.

Dos 65, o caso 24 lhe deverá interessar. Em 1867, um jardineiro de Jabbeke, na Bélgica, caiu duma árvore e teve a perna esquerda esmagada, com ruptura total da tíbia e do perônio. Um médico o aconselhou a amputar a perna. Fratura torcida, que estilhaça os ossos e produz fratura exposta, e ainda assim, recusou a proposta obstinadamente. Após 8 penosos anos de agravamento, em 1875, o pobre Peter Van Rudder, de muletas, acompanhado pela esposa, pegou o trem para ir a Gand e, de lá, de carruagem, chegar a um santuário mariano, em Oostakker, que continha uma réplica da caverna de Lourdes. As testemunhas do trem viram-no trocar os curativos; os da carruagem protestaram porque o pus fedia e pingava. Foi um dia terrível em que Van Rudder teve que agüentar as extremidades necrosadas dos ossos quebrados perfurando sua carne gangrenada.

Santuário de Oostakker
Mas veja só: ele não foi a Lourdes. De fato, quando analisaram as tais águas milagrosas, eram apenas quimicamente puras, mas nada de mais. Retomando uma fala de Bernadete: "Não é a água que cura. Ela é um símbolo. É a fé que cura". Devoto de Maria, Van Rudder, aleijado, deu o salto da fé. "Chegando diante da reprodução da estátua da Virgem exposta em Lourdes, Van Rudder implorou (como ele mesmo afirmou) o perdão de seus pecados e a graça de poder retomar o trabalho e ganhar o pão para sua família. De repente sentiu perpassar por seu corpo alguma coisa que ele definiu 'como uma revolução'. Não se dando conta do que havia acontecido, deixou cair as muletas, foi para o meio dos peregrinos e ajoelhou-se [o que antes seria impensável] diante da Imaculada. Somente ao ouvir os gritos de sua mulher é que se deu conta de estar [instantânea] e completamente curado".

"O primeiro relatório, apresentado por dois médicos que, já havia tempos, cuidavam dele, descreveu assim aquele momento: 'a perna e o pé, muito inchados, recuperaram imediatamente o volume normal, tanto que a bandagem caiu sozinha. As duas feridas gangrenosas cicatrizaram-se. O mais importante é que a tíbia e o perônio que estavam fraturados soldaram-se, não obstante a distância que separava as partes de cada um deles. A soldadura foi tão perfeita que as pernas voltaram a ter novamente o mesmo tamanho'."

Peter Van Rudder após o milagre
Seu patrão, um senador ateu, anticlerical, converteu-se imediatamente ao ver seu ex-jardineiro voltar completamente curado. Vários médicos que haviam tratado dele também. É um caso em que houve perda óssea, logo, a cura, como atestada por radiografias, anos depois, e quando morreu, pela autópsia, significou o surgimento de osso, do nada, e instantaneamente! Ex nihilo!

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O livro donde tirei esse material diz: "O cientista não tem necessidade de ver crescer novamente uma perna ou um olho. A ele lhe basta a reprodução de apenas uma microscópica célula. O fenômeno, para o cientista, não varia substancialmente de acordo com a variação apenas de quantidade". Se você é "científico", há de concordar.

De volta à pergunta: Ciência (meio) ou Verdade (fim)? Por incrível que pareça, nem todo mundo deseja a verdade. O fator subjetivo prepondera sobre o objetivo. Ciência deixa de ser ciência quando não diz o que se quer ouvir. Isso é particularmente gritante no campo político. Se a verdade fosse o fim, testemunhá-la em primeira mão dispensaria qualquer outro meio de chegar a ela. É o que se esperaria de uma pessoa mentalmente sã. No que diz respeito a Lourdes, não foi o caso de Émile Zola. Foi para o local determinado a desmascarar o que ele cria ser uma impostura. Porém, pessoalmente, testemunhou duas curas. Atônito, providenciou que as duas mulheres curadas saíssem do país, declarou-as mortas e escreveu um livro infamante contra o fenômeno! Grande escritor. Alma pequena.

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Nossa Senhora de Lourdes, rogai por nós!

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