sábado, 20 de agosto de 2016

Reforma íntima: "Pobres de espírito"

"Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus."(Mateus 5:3, tradução Almeida Corrigida e Revisada Fiel)

Mendicante em Mumbai, Índia.
Dado o sentido de "intelectualmente inepto" atribuído à expressão "pobre de espírito", esse versículo soa um tanto despropositado e, não sem razão, há exegeses objetivando desconstruir o equívoco a que pode dar ensejo na interpretação das palavras de Jesus. Huberto Rohden (1893 - 1981), filósofo brasileiro, em "O Sermão da Montanha", diz que poucas passagens do Evangelho foram tão adulteradas como essas, que muitos "aderem à blasfêmia de que o Nazareno tenha proclamado bem-aventurados [...] os apoucados de inteligência, os idiotas e imbecis, os mentalmente medíocres", uma interpretação proverbial que atesta a "hilariante ignorância" e a "revoltante arrogância" de seus autores, que profanam uma das mais sublimes mensagens do Cristo, fazendo o próprio Jesus imerecedor do Reino dos Céus. Por sua vez, Allan Kardec (1804 - 1869), pensador francês, diz que os incrédulos até zombam dessa máxima, como se Jesus tivesse se referido aos "baldos de inteligência".

Neste artigo, apresento uma interpretação minha com base na etimologia do texto grego original, sem a pretensão de que esta seja a única forma de analisá-lo, sequer que seja a única correta.

Interpretando


Rohden (op. cit.) defende que a expressão devesse ser "pobres pelo espírito", quer dizer, "aqueles que são pobres, ou desapegados, dos bens terrenos, não pela força compulsória das circunstâncias externas e fortuitas, mas sim pela livre e espontânea escolha espiritual", o que seria uma "libertação interior", pois, "pela força do espírito, se emanciparam da escravidão da matéria". Dessa forma, leva a interpretação para o sentido do desapego material tendo em vista a "pérola preciosa", "o tesouro oculto", do Eu divino em nós.

Swami Prabhavananda, guru
de uma ordem religiosa hindu
que reconhece a missão divina
de Jesus, "a personificação do amor".
Outra interpretação vem de uma fonte insuspeita: do guru indiano Swami Prabhavananda (1893 - 1976) em "O Sermão da Montanha segundo o Vedanta". Neste livrinho espetacular, o mestre indiano verte a expressão com "pobres em espírito" e acentua o sentido de humildade, mas tendo em vista o papel do ouvinte como discípulo: "Se uma pessoa orgulha-se do que sabe, da riqueza, da beleza ou da linhagem; se tem ideias preconcebidas do que seja a vida espiritual e de como deveria ser ensinada - então sua mente não está receptiva aos ensinamentos mais elevados".

Kardec (op. cit.) também acentua o papel da humildade na apreensão dos assuntos sagrados: "Os homens de saber e de espírito, no entender do mundo, formam geralmente tão alto conceito de si próprios e da sua superioridade, que consideram as coisas divinas como indignas de lhes merecer a atenção. Concentrando sobre si mesmos os seus olhares, eles não os podem elevar até Deus [...] Eles se atribuem espírito e saber em tão grande cópia, que não podem crer em coisas, segundo pensam, boas apenas para gente simples, tendo por pobres de espírito os que as tomam a sério" (grifos dele). Então, Kardec explica que "[d]izendo que o reino dos céus é dos simples, quis Jesus significar que a ninguém é concedida entrada nesse reino, sem a simplicidade de coração e humildade de espírito; que o ignorante possuidor dessas qualidades será preferido ao sábio que mais crê em si que em Deus" (grifos dele). Concluindo, diz que "[e]m todas as circunstâncias, Jesus põe a humildade na categoria das virtudes que aproximam de Deus e o orgulho entre os vícios que dele afastam a criatura: a de ser a humildade um ato de submissão a Deus, ao passo que o orgulho é a revolta contra ele. Mais vale, pois, que o homem, para felicidade do seu futuro, seja pobre em espírito, conforme o entende o mundo, e rico em qualidades morais" (grifos dele).

A Bíblia de Jerusalém também tem notas a respeito deste controverso versículo. Em sua introdução ao livro do apóstolo  Mateus, diz-nos que "pode-se caracterizar seu evangelho como uma instrução narrativa sobre a vinda do Reino dos Céus" no qual apresenta o ensino de Jesus como algo que "'realiza' a Lei [...] dando-lhe uma interpretação nova e mais interior". Neste contexto, nos informa que "bem-aventurados" é uma típica fórmula de felicitação que, nos três primeiros versículos do Sermão, declara que "pessoas comumente tidas como infelizes e amaldiçoadas são felizes, pois estão aptas para receber a bênção do Reino" (grifos meus). "Pobres", aqui, teria um "matiz moral", já presente em Sofonias 2:3, e se referiria aos "[d]espojados e oprimidos [...] humildes [que] estão disponíveis para o Reino dos Céus". As notas também fazem paralelos com outras passagens do Novo Testamento e concluem que "[e]mbora a fórmula de Mt 5,3 enfatize o espírito de pobreza, tanto no rico como no pobre, o que Cristo quer salientar em geral é pobreza efetiva, especialmente para seus discípulos" (grifos do autor).

O paralelo com o texto de Sofonias traz outras notas úteis para o entendimento da passagem. Diz o profeta (Sofonias 2:3): "[P]rocurai a Iahweh vós todos, pobres da terra, que realizais o seu julgamento". A nota esclarece que "pobres" ou "humildes", 'anawîm (plural hebraico), "são antes de tudo oprimidos, 'aniyyîm" (plural), para os quais os profetas reclamam justiça, amparados pela legislação humanitária do Deuteronômio; são os israelitas submissos à vontade divina;  e que as palavras 'anaw ou 'ani (singular das palavras mencionadas acima), no período helenístico, na época da primeira tradução das escrituras hebraico-aramaicas (o Antigo Testamento) para o grego, "exprimia[m] cada vez mais uma ideia de altruísmo". Sofonias daria uma conotação moral e escatológica à pobreza, como na seção IV do livro (3:9-20), dentro da qual os vv. 12 e 13 falam dum restante de povo, "humilde e pobre" ('ani we dal) que "procurará refúgio no nome de Iahweh", e eles "não praticarão mais a iniquidade; não dirão mentiras; não se encontrará em sua boca língua dolosa". Zacarias 9:9 também acrescenta que o próprio Messias seria humilde (hû' 'ani, "ele [é] humilde).

* * *

Conquanto sejam respeitáveis as lições destes grandes pensadores, gostaria de expor aqui uma interpretação particular minha, baseada no meu entendimento sobre as palavras originais. Jesus começa o Sermão da Montanha com essas palavras enigmáticas. Bem pode realçar a necessidade de humildade como de desapego da matéria para iniciar e manter o aprendizado espiritual, mas acredito que a lição aqui possa ser a seguinte:

A acepção pejorativa, de "pouca inteligência", talvez derive da Vulgata latina, que verte esse versículo como beati pauperes spiritu quoniam ipsorum est regnum caelorumPauper (pl., pauperes), "pobre", refere-se a carência, portanto, pauper spiritu pareceria significar "carente de espírito", "aquele a quem falta espírito". Todavia, em grego, a passagem é makarioi hoi ptōkhoi tō pneumati, hoti autōn estin hē basileia tōn ouranōn, na qual a palavra habitualmente traduzida por "pobre" é um substantivo que reflete um agente, não um adjetivo que remeta a uma condição, a de carência. Ptōkhos (pl., ptōkhoi ) refere-se melhor à ideia de "mendigo", daquele que busca se prover, com humildade, junto a quem possui daquilo de que tem necessidade. É claro que aqui também temos a ideia de carência, mas é menos passiva, menos fatalista. O ptōkhos sabe que padece de carência de algo vital, sabe que não pode prover a si próprio, e age, portanto, para obter o socorro junto àquele que pode ajudá-lo. De fato, a palavra grega deriva do verbo ptōssō, que significaria, nesse contexto, "agachar-se, junto ao caminho de alguém, e elevar suas mãos em súplica por ajuda", atitude típica do mendicante. Uma pessoa pode ser pobre tendo poucos recursos, mas só o mendigo é pobre num nível fundamental, cônscio de cuja necessidade, busca humildemente o concurso dos outros. Assim, há uma mudança significativa na conotação dessas palavras do Sermão.

Outro problema é a expressão "de espírito". Em grego sequer aparece uma preposição ou a declinação (um tipo de flexão que dá aos nomes uma função específica na frase) equivalente a "de", que resultaria em tou pneumatos, com sentido partitivo, como se fosse o complemento de "pobre". Ao contrário: a expressão é construída com a declinação do dativo, tō pneumati, tornando a palavra "espírito" (pneuma) outro elemento, diante do qual o agente pratica sua ação. Isso concorda com a etimologia da palavra grega para "pobre": alguém que mendiga junto a alguém, no caso, junto ao espírito (tō pneumati). Desde a primeira tradução da Bíblia das Testemunhas de Jeová, esse sentido já é bem claro. Na tradução mais atual até mesmo adicionaram uma nota que explicita ainda mais esse entendimento (ver a nota * em  Mateus 5:3, da Tradução do Novo Mundo da Bíblia Sagrada). Também convém lembrar que mesmo em latim é possível essa interpretação, já que spiritu está no caso ablativo, indicando separação, tal como no grego.

Por fim, temos a palavra "bem-aventurado", que em grego é makarios (pl., makarioi). Essa palavra difere um tanto de outras palavras que também são habitualmente traduzidas por "feliz", como eudaimōn, "quem tem um bom demônio", isto é, "quem tem uma boa entidade espiritual a lhe favorecer a vida", ou "quem é bem favorecido pelos espíritos", etc., e eutykhos, "bem afortunado", "bem favorecido pela deusa da sorte, pela Fortuna". Enquanto as duas últimas indicam uma condição afortunada, favorecida em sentido mundano, makarios implica um favorecimento imaterial, uma bênção proferida, um estado de felicidade derivado da condição espiritual. Essa palavra deriva de makar, que se refere à bênção dos deuses aos heróis, que eram semideuses, filhos dos deuses, e também àqueles que morreram e estão, enfim, livres das dores da vida.

* * *

Entendo que a mensagem de Jesus visa a reforçar nossa filiação divina, reconhecendo, contudo, que estamos numa condição que nos impede de apreender nossa verdadeira essência. É um euaggelion, "boa notícia", "boa nova",  porque nos diz que já podemos regressar para a nossa família espiritual, como na parábola do filho pródigo. Jesus deu testemunho da verdade (alētheia), e a verdade é o reino dos céus, reino de Deus. Então, tudo se encadeia: sendo o homem filho de Deus, a boa nova é que nós partilhamos da natureza divina, o reino de Deus está dentro (entos) de nós, e isso é a verdade sobre quem somos, ou seja, é algo que, por ser a nossa essência, não (a-) pode ser esquecido (-lētheia). A missão de Jesus não era apenas falar dessa verdade, era testemunhá-la. A palavra grega para "testemunha" é martys, "aquele que dá a própria vida para atestar algo", e daí entendemos porque tinha que ser assim: o que ele vinha atestar era algo que, uma vez revelado na vida humana, transformaria toda a nossa experiência ante o mundo, tornando o ser uma manancial de amor mesmo nos momentos mais tormentosos para a carne. Amor é Deus mesmo, e o cristão, ungido pela renovação, tornado um novo homem em Cristo, vivendo em Deus e nele se movendo, reflete o amor divino, porque, sendo espírito como Deus é, sendo filho de Deus, amor é também a sua própria essência. Jesus venceu a carne (sarx) e, assim, venceu também o mundo (kosmos), mostrando que nós, da mesma forma, podemos ver que somos mais que as contingências da matéria (a carne, ou seja, o ego) e da ordem por ela criada (o mundo, em grego kosmos, refere-se à disposição, a como as coisas estão arranjadas para funcionamento) - somos espírito (pneuma), somos filhos do céu (a palavra grega para "deus", theos, significa originalmente "céu" ou "celeste"), portanto podemos receber o reino de theos, ou melhor, deixá-lo brotar de dentro, o que tem como resultado o surgimento de um novo mundo, um novo kosmos, ou seja, uma nova ordem na experiência humana, mesmo em transição na matéria.

Era, portanto, de se esperar que Jesus começasse sua prédica alertando àqueles que apenas buscavam o pão material que mendigassem (ptōssō), que fossem mendicantes (ptōkhoi), não diante da carne (tō sarki), não diante do mundo (tō kosmō), que não podem jamais dar aos homens os frutos de sua  verdadeira natureza, mas diante do espírito (tō pneumati), ante Deus em nós.

Então, minha leitura do versículo ficaria assim: "Já são felizes espiritualmente, mesmo nesta vida cheia de dores, aqueles que se reconhecem como mais que matéria, como filhos de Deus, que é Espírito, e como tais, também são espíritos que devem refletir a divindade em si, o que as constrições da carne impedem o homem de realizar, e, por isso, cientes de sua natureza, buscam satisfazer sua essência espiritual, em indigência na condição encarnada, buscando humildemente junto ao Eu Espiritual a própria desvelação como espírito eterno além das vicissitudes da experiência carnal".

* * *

Gostaria de terminar fazendo um paralelo com uma parábola budista, que expressa basicamente a mesma ideia:

Um homem viu outro caído de embriaguez no chão e, reconhecendo-o como um amigo, decide sentar a seu lado para velar por ele. Como tivesse compromisso e não pudesse esperar mais tempo, pôs dentro da roupa do dorminhoco uma joia para ajudá-lo em suas necessidades e foi embora. O ébrio despertou mas continuou sua vida errante, bêbado e empobrecido, mendigando por toda a parte sem saber da riqueza que carregava consigo até que, muito tempo depois, reencontrou o amigo e este lhe revelou a joia despercebida.

Da mesma forma, caminhamos pelo mundo, mendigando as coisas do mundo, sem nos apercebermos de nossa joia interior: nossa alma, filha e imagem e semelhança de Deus!

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