sexta-feira, 12 de agosto de 2016

"São João, São João! Acende a fogueira do meu coração!"

Em grego: "O santo João"  (sobre a auréola), "O pródromo"  (ao lado).
No pergaminho, "Arrependei-vos, pois o reino dos céus [já] está perto".
Como "comemorar" deriva de "com+memória", este é um momento para lembrarmos juntos, refletirmos juntos, sobre a vida desse personagem, real ou fictício, que nos legou uma mensagem essencial e necessária até (e mais ainda) aos dias de hoje.

A data deve ter sido escolhida pra se ajustar ao Natal, visto que João teria nascido seis meses antes de Jesus. Como o 25 de dezembro não corresponde à data real do nascimento de Jesus, tampouco 24 de junho seria a do nascimento de João. Nada disso, contudo, invalida o que podemos aprender com ele.

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João Batista teria sido o último dos profetas hebreus da estirpe dos antigos nevi'ím, inspirados espiritualmente a proclamarem em meio a uma sociedade corrompida uma mensagem impactante mas reformadora de almas. (A palavra hebraica nevi'iím é o plural de navi', geralmente traduzido como "profeta" mas originalmente teria o significado mais próximo de "médium", alguém que intermedeia entre o mundo espiritual e o físico portando mensagens do primeiro para o segundo, nem sempre premonitórias.)
O profetismo judaico era um movimento de certa forma oposto ao sacerdócio. No fundo, as duas instituições tinham o mesmo objetivo, mas recorriam a meios distintos: o sacerdócio promovia a reforma humana pelas leis e pelos ritos, de forma social e "estatizada" - um poder promovendo os valores almejados por meio desses instrumentos cognitivo-comportamentais; e os profetas induziam a reflexões místicas sobre o espírito das leis e dos ritos. Os profetas apareciam quando algo estava errado no cumprimento dos ritos e das leis, mesmo quando estivessem sendo praticadas, mas sem o efeito transformador esperado de sua aplicação. Ou quando já era hora de dar um salto adiante, e fazer-se lei para si mesmo através da consciência (como mais tarde o apóstolo Paulo falou abertamente), e prescindir do "tutor", da coerção educativa.

Algo bem simples ilustra a situação: você dá "bom dia" para alguém, aperta sua mão, e faz isso por urbanidade. O rito deveria criar o sentimento real do desejo de um bom dia para o próximo e a deposição de suas armas (a mão destra) diante do outro. Depois de ser urbano, você o prejudica de tal forma que o dia dessa pessoa não termina "bom", empregando sua mão simbólica como instrumento desse mal. O rito virou mero gesto vazio. O verniz da sociabilidade é mera máscara: você se tornou um ator (hypokritês, em grego), e esvaziou e sabotou todo o sentido da atitude. Um profeta hebreu atentaria para a contradição disso e convocaria o "hipócrita" a viver a essência do rito, ou seja, mesmo sem a urbanidade, atingir a finalidade de desejar o bem e abdicar de qualquer mecanismo de fazer o mal.

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João teve o nascimento anunciado pelo anjo Gabriel, cujo nome significa “varão vigoroso de Deus”- em termos atuais, "soldado de Deus". Gabriel anunciou ao idoso sacerdote Zacarias que ele seria pai de um profeta - da linhagem sacerdotal nasceria um navi', um pregador místico. A mensagem é clara: o rito não tem atingido seu objetivo, é hora de provocar a consciência das pessoas. E provocar consciências é uma batalha épica.

"Ele irá na frente [de Deus] com o espírito e o poder de Elias, para fazer o coração dos pais se tornar como o de filhos e fazer os desobedientes se voltar para a sabedoria prática dos justos, a fim de aprontar para Jeová um povo preparado" (Lucas 1:17).

João é inserido no movimento profético (como Elias) para trabalhar com os "corações" e as mentes ("sabedoria prática", no grego original, é phrónêsis, "mentalidade", "forma/processo de pensar que reveste os atos"). Para fazer adultos, que têm a obrigação de ensinar, se tornarem como filhos, na condição de aprendizes - isto é, darem meia volta (epistrépsai) no caminho que faziam como mestres e voltarem na condição de discípulos. Para transformar a desobediência (apeitheîs, "desobedientes", são aqueles "que não se convencem, não foram persuadidos"), que é o fracasso do rito, em sabedoria espontânea, emergindo da própria Razão de cada um. Para aprontar (hetoimásai), isto é, tornar hetoîmos, "disposto", "preparado intimamente", um povo para Jeová - um povo "preparado", kataskeuasámenon, isto é, provido de skeûoi, "utensílios", "apetrechos", “parafernália”, equipado com receptáculos, vasos, com os quais faria uma longa e áspera jornada e colheria do que Deus lhe fornecesse - ou seja, de coração e mente aptos a absorverem a provisão dos ensinos do iminente Messias. Como pródromos ("aquele que vai na frente") de Deus, João tinha uma tarefa colossal.

João "se tornou forte em espírito [e] continuou no deserto até o dia em que se mostrou abertamente a Israel" (Lucas 1:80).

Para cumprir sua missão, João recorreu ao ermo. Talvez seus pais houvessem morrido quando ele ainda era criança, mas decerto não lhe faltaram orientações, afinal, o próprio Gabriel deixou a instrução de que não consumisse nenhuma bebida inebriante. A mensagem angélica era clara: para tal tarefa, tal lucidez – em hipótese alguma a sobriedade e a racionalidade de João poderiam ser turvadas. Sem os pais, todavia não desamparado, pois tinha uma grande família, João seguiu o rumo de todos os místicos (inclusive Jesus) – daqueles que precisam ouvir, em vez do discurso das tradições, a voz quase inaudível da Verdade última da vida, para ouvir Deus falar por meio de sua própria alma e refletir (lúcido) longamente sobre a pesada incumbência, que para todos os profetas sempre foi uma vocação inescapável. "Místico" vem do verbo grego mýssô, "falar com a boca pequena", sussurrando. Para dialogar com essa voz, só o silêncio profundo. O ermo era um poderoso aliado físico para potencializar o silêncio: mais que uma fuga do borborigmo profano das cidades e vilas, uma oportunidade de calar os ruídos avassaladores dos pensamentos e paixões humanos, que são outra forma de embriaguez da qual João, coerentemente, procurou escapar. (A palavra grega pra "deserto", érêmos, de onde deriva "ermo", dá essa ideia de silêncio, sossego, e gosto de pensar que, devido a semelhança com o radical do verbo grego eréô, "perguntar", seja o lugar a que recorremos para fazer perguntas a Deus e ouvi-lO na quietude.)

João ficou conhecido por se vestir com um manto de pelos de camelo e se alimentar de gafanhotos e mel silvestre. O camelo, como lembraria mais tarde Jesus, representa o conflito entre riqueza material e o ingresso no Reino de Deus. O gafanhoto, famoso pelas pragas, castigos divinos, por provocar escassez de víveres, significa que mais vale viver em carência dos bens do mundo que dos bens espirituais, mais vale se afadigar pela subsistência da alma que ocupar-se integralmente no cultivo exclusivo para as necessidades materiais. E o mel, consumido junto com o gafanhoto, faz lembrar que a terra da promissão já é aqui e agora, mesmo em meio à carência física, que podemos desfrutar da doçura inculta que emana de um espírito liberto das constrições da mundanidade. Nesse sentido, João ekrataioûto, adquiriu krátos (de onde vem "-cracia"), força, governo de si mesmo, entregando o comando ao espírito, a instância máxima a que sua mente conseguiu atingir, dentro de sua própria constituição: não mais o corpo com suas mazelas, com seus atavismos bio-psico-sociais, mas seu espírito, o sopro de Deus nele, seria a força, o governante de sua vida.

Como todo profeta, um místico que ouviu um chamado, que foi enviado ao mundo para revelar o que essa voz oculta lhe disse, João não poderia se comunicar apenas com a linguagem linear de qualquer retórica, por mais grandíloqua que fosse. Os profetas buscam uma linguagem "quântica", do um no Todo e do Todo no um, e recorrem aos mesmos artifícios com que a Verdade-além-de-toda-verbalidade costuma lhes instruir. A teatralidade, os ditos proverbiais, às vezes canções, as parábolas, até as escolhas da vida cotidiana servem de artefatos semânticos para despertar na consciência do outro uma cadeia de reflexões que poderá levá-lo à iluminação, ao "insight" que sanitizará sua forma de pensar – como um "koan" do Budismo Zen. João fez de toda a sua vida uma mensagem – em palavras, em conduta, no comer, no vestir, no viver e no morrer. (1 Samuel 9:9 nos diz que antes da designação naví', os profetas eram chamados de ro'éh, "vidente" - daí toda a dificuldade de traduzir para a pobre linguagem humana a ampla gama de visões arquetípicas quase intraduzíveis com que o espírito se comunica com o homem.)

Quando se "mostrou abertamente a Israel", foi a um Israel duplo. O nome, que significa "aquele que luta com Deus", era mais que apropriado a um povo que em parte lutava pela bênção divina, como o patriarca Jacó, e em parte lutava como adversário de Deus, ainda que inconscientemente, uma vez que havia enfraquecido a mensagem simbólica da lei e do rito, mas também conscientemente, quando deliberadamente matava os profetas, calando as vozes que não permitia falar dentro de si mesmo. João tocou o primeiro tipo de Israel e os inconscientes do segundo, e foi tocado mortalmente pelo Israel homicida – o Israel que somos todos nós, dia a dia calando com violência a voz sussurrante de nosso espírito em nossa consciência.

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A mensagem de João em sua pregação era certeira: Já não era ele mesmo, em sua frágil hominidade ("homem" deriva da raiz latina de humus, "terra"), quem proclamava: era uma "voz que grita no deserto", a voz da divindade oculta do homem, audível quando sua mente cala o estardalhaço sensório, o fluxo desconexo de ideias, de introjeções de um mundo, um kósmos, uma forma de ordenar a percepção experiencial da existência que nos extravia de nós mesmos; a voz que ele ouviu e da qual se tornou o portador. E ela tem urgência: tanta dor quando o Reino está tão próximo (Mateus 3:2), éggiken, de eggýs, "perto, à mão", e para chegar a ele basta reconhecer o caminho e se dispor a trilhá-lo! Saí da periferia de vossa Natureza, bem perto está o núcleo que faz de vós imagem e semelhança de Deus!

"Arrependei-vos" (Mateus 3:2), metanoeîte, isto é, transformai (metá) a instância de vossa essência que vos faz homens, o noûs, a mente, o pensamento, os sentimentos, o domínio da Razão na circunscrição do corpo, assim como uma metamorfose é uma mudança (metá) de forma física (morphê), reformai vossa imaterialidade.

"Preparai o caminho do Senhor", "tornai retas suas veredas" (Mateus 3:3), ou seja, estai dispostos para o caminho, hodós, "a estrada pavimentada", planejada, que leva em segurança para autorrealização do Eu supremo no eu humano! Em vez de vos perderdes na tortuosidade de vossas veredas, tríboi, "trilhas gastas" de tanto andardes em círculo, em hábitos improfícuos, trabalhai nelas para chegardes mais depressa ao destino – afinal, o menor caminho entre dois pontos é uma linha reta!

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O efeito da pregação de João era que ele arrastava para si toda a Judeia, e multidões eram batizadas, cada pessoa das quais confessando seus pecados (Mateus 3:6). E nisso a didática da voz do deserto de João Batista também se manifestava simbolicamente.

Quando Deus criou o mundo, Seu Espírito pairava sobre a face das águas, de onde retirou o inteiro mundo físico. Não é trivial a concepção de que a matéria surge de um fluido atuado por uma Consciência – a Física moderna já sustenta essa ideia. Para os judeus, a água simboliza a fonte da matéria que, em conjunção com o sopro, o ruahh (hebraico), o pneûma (grego), o spiritus (latim), dá origem à vida material. O batismo, do grego baptismós, era um mergulho nessa fonte, um reconhecimento da nossa proveniência, e, por isso mesmo, deveria ser acompanhada da confissão.

Quando o Evangelho diz que os batizados, "mergulhados na fonte da matéria", confessavam (exomologoúmenos) seus pecados (hamartías), quer dizer que punham para fora ("ex-") o verbo, a palavra, a razão ("log-", de lógos) comum, conjunta ("-omo-", de homós) que acarretou em o espírito de Deus neles ter errado o alvo, desacertado o caminho, que é o que a palavra "pecado", hamartía, significa – atirar uma flecha e errar, não atingir o destino intentado. Confessar, "ex+omo+logéo", é reconhecer que o sopro divino na nossa materialidade não realizou, ainda, seu propósito: o homem ainda não foi finalizado, feito (hebraico asa', ação que implementa) imperfeito embora tenha sido criado (bara', ação de conceber um projeto) perfeito (téleios). Não sendo téleios, perfeito, também não atingiu o alvo (télos, fim). A razão é que, dotado de livre-arbítrio, usamos uma Razão distorcida pela desobediência, usamos uma razão (lógos) oriunda da persona, da máscara humana que oculta nossa origem divina, e não a Razão oriunda da essência última, do espírito, a Razão (Lógos) de Deus em nós.

Quando o outro João, o Evangelista, escreveu que "no princípio era o verbo [=lógos]" e que essa Razão que estava no princípio com Deus encarnou entre nós na pessoa de Jesus, então compreendemos melhor o papel do Batizador: ele despertou uma multidão para a busca da realização plena dessa Razão Divina que todos nós temos e somos, mas que até então apenas Jesus tinha incorporado, vivido e evidenciado, sendo portanto, o guia perfeito para nos conduzir, não mais através dos ramais tortuosos das nossas pequenas razões, mas através da via pavimentada por ele mesmo em direção ao Reino de Deus, que de tão próximo, está em nós mesmos. De fato, a doutrina de Jesus era conhecida originalmente como "O caminho", hê hodós (Atos 9:2; 19:9, 23; 22:4). É dessa palavra que deriva "método", méthodos, "com o caminho definido".

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Quando João foi preso, para em seguida ser brutalmente assassinado, Jesus testemunhou a seu respeito: "Um profeta? Sim! Mais que um profeta! [...] um mensageiro [ággelos, a mesma palavra que dá origem a "anjo"] de Deus [...] Dentre os homens nascidos de mulher, nenhum é maior do que João”. Era o Mestre reconhecendo que seu antecessor fizera tudo a seu alcance para que todos, juntos, pudessem seguir O Caminho. Embora "o menor no reino de Deus" fosse maior que ele, João incorporou o espírito coletivo do plano divino para o homem, tornando nossa ascensão, nossa evolução rumo à perfeição, ao alvo, um assunto social, da inteira família humana, na qual um irmão mais adiantado, embora não tenha chegado ao destino, vá à frente guiando os irmãos mais novos enquanto ele próprio segue a voz mística e o método para completar a jornada.

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Talvez precisemos também de um profeta. Afinal, não é verdade que as comemorações de São João se tornaram mero ensejo para comer, beber e namorar, sem se atentar para a real finalidade do rito – lembrar de quem nos lembra do que somos?

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