"Nau+frágio" - quebra da navio...
| "Le radeau de la Méduse" (1818/19), de Théodore Géricault (1791-1824) |
Tem um provérbio árabe que diz que só é nosso de verdade aquilo que podemos salvar num naufrágio, ou seja, mal nosso corpo nos pertence, e mal nossa razão, porque podemos enlouquecer com a experiência.
Mas o que mais gosto na ideia de naufrágio é que enfim o homem vê quais são suas verdadeiras prioridades e o quanto ele correu atrás de vento, ensandecido de vaidade. Suas necessidades artificiais desaparecem, ele despenca na pirâmide das necessidades de Maslow, e se vê obrigado a se ver tal como é.
Ulisses, herói da "Odisseia" de Homero, após vagar por anos ansiando o retorno ao lar, à família, naufraga e é resgatado na ilha dos feácios e conduzido ao rei. O povo da ilha tinha uma profecia que alertava sobre esse náufrago - o dia em que o ajudassem, seriam tragados pelo mar e desapareceriam do mundo. Ainda assim, a hospitalidade dos antigos pôs as necessidades do náufrago acima de todo o medo. O rei disse a Ulisses que lhe concederia um pedido, o que quisesse. Ulisses, que morreria feliz de poder ver, ao menos de longe, o fumo da chaminé de sua casa, respondeu: "sou o mais miserável dos homens - há anos que não vejo minha esposa nem meu filho, que cresceu sem mim, mas agora, dadas as circunstâncias, tudo o que quero é um prato de comida" (para onde foi o paradoxo econômico da água e do diamante?). Como disse Nietzsche, "é o ventre que impede o homem de se considerar facilmente um deus".
O naufrágio é um "orgulhofrágio". Nem um "deus", nem um "auto-artefato" apartado da Natureza. Dependente dela, o homem tem a oportunidade de desenvolver gratidão a um poder que o abarca, que ele não compreende, mas do qual se vê devedor. Não à toa a palavra russa "Bog", que tem origem numa raiz que significa "dádiva", refere-se ao grande doador, cuja generosidade permeia o inteiro mundo físico: Deus.
Numa figura de linguagem, Thoreau, em "Walden - ou vida nos bosques", afirmou que não precisamos contar além dos dez dedos das mãos (os povos tupis só tinham números até "4" - para "5", falavam "xe pó", "minha mão"). Quando contamos além, perdemos o contato com o chão, com o hausto da biosfera, oriundo do solo, da vegetação, do ar, da sinergia de tantos processos, em que cada criatura, por mais diminuta que seja, presta seu tributo para o completo tecido que chamamos de "vida", do qual o ser humano é apenas "um de seus fios", na fala do cacique Seattle, e passa a viver numa abstração, onde tudo é possível, mas em desacordo com a base de realidade que sustém mesmo sua mente delirante. Essas mentes, organizadas em sociedade, conduzem seu navio fantasma errabundo - fazem "kybérnesis", donde vem a palavra "governo", "direção do barco" - alheios a que o mar, os ventos, as rochas e as criaturas dos elementos são indiferentes às fantasias de seus roteiros - e aí, naufragam.
O naufrágio propicia auto-transcendência ao mergulhar o náufrago em sua própria impotência, para fazê-lo descobrir seus reais valores e de que é feito. E fazê-lo perceber onde é o cenário real de sua existência. A dor é a melhor didática do autoconhecimento - inclusive para o "eu social". Cedo ou tarde, e isso aconteceu ao longo de toda a História, com todos os povos, a viagem acaba em escolhos no alto mar: o navio se desmantela e os sobreviventes têm de tomar a peito a tarefa de compreender os próprios erros. Hoje, vemos quão longe ambicionamos fugir da Natureza pela forma como subvertemos nossa própria racionalidade a fim de tornar o mundo material, inclusive nossos próprios corpos, um mero acessório de nossos caprichos. Após poluirmos nossas mentes com desvarios megalomaníacos, poluímos cada palmo da Natureza, mesmo a que ainda nem viu a luz do Sol (não há um único bebê em qualquer parte do planeta que já não nasça contaminado com agrotóxicos, segundo o livro "A história das coisas", de Annie Leonard), com o produto conseqüente de nossos raciocínios desnaturados - qualquer coisa, menos vida.
A procela já se anunciou, do cesto da gávea já foi vista há muito, e agora o navio se agita. Vamos esperar ir a pique pra só depois aprendermos?
Lao Tsé (em Tao Te Ching): "Quando o homem não mentaliza (=política, cultura, leis, entretenimento) o mal, o mal não lhe acontece. Deixa o mal no berço (=na mente) da maldade, e o mal não desgraça o homem [...][O sábio] conhece as suas possibilidades (=a lei da Natureza), por isso não exorbita dos seus limites".
Vídeo disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=WfGMYdalClU
Nenhum comentário:
Postar um comentário