Revi recentemente o filme "Eu, robô", com Will Smith, e me chama atenção a cena em que o personagem dele tenta humilhar um robô dizendo que este não poderia compor uma obra de arte, uma sinfonia. O robô responde: "você consegue?". É a mesma pergunta que eu faço em nome dos animais: "você consegue expressar a plenitude de sua arrogada racionalidade?". Então, como poderíamos ser superiores com base num atributo que não possuímos plenamente?
O físico indiano Amit Goswami desenvolveu uma teoria revolucionária, a partir da Física Quântica, que afirma que há uma Consciência atuando no mundo físico - é um desdobramento lógico de que Bohr, Heisenberg e outros pioneiros já estavam suspeitando. Isso colocaria os animais, como ele argumenta no livro "Evolução criativa das espécies", como provas vivas da existência de Deus, guiados por uma mente que é a própria consciência do Universo - é aquilo a que o ser humano se refere com desprezo como "instinto". Assim, é fácil compreender como o animal, embora não seja "racional", seja mais inteligentemente integrado ao mundo que o abriga e suporta sua existência. O homem, mesmo com a deixa de Paulo, "em Deus vivemos, em Deus nos movemos e existimos" (Atos 17:28), não só não se integra como desintegra.
Mesmo como metáfora, Gênesis nos diz que o homem, que tanto em português (do latim "homo") como no hebraico ("Adham") significa "húmus", "terra", foi criado para cuidar de um jardim e se relacionar com todas as outras formas de vida (dar nome aos animais, como Deus ordenou a Adão, implica necessariamente conhecê-los pelo convívio respeitoso). Esse jardim, "gan", que seria de delícias, "édhen", rapidamente descambou para uma terra devastada na qual até as funções mais básicas da existência se tornaram perigosas: respirar, beber água, alimentar-se, reproduzir-se. Foi o homem quem caiu e decaiu - por conta de suas escolhas, de sua "racionalidade", de sua "superioridade". Por isso Nietzsche diz, em "Assim falou Zaratustra", que o homem não é mais sequer um animal, para isso teria de ser inocente ("Unschuld", "não-culpa"). Assim, noutra obra, o filósofo alemão afirma que o homem se tornou a doença da Terra - uma parasita na pele de Gaia.
E ainda continua a reafirmar sua superioridade depreciando o instinto com o qual já sequer pode contar, porque o degenerou: o "instinto animalesco" do homem não é "animal", é "hominalesco", porque sua própria artificialidade releva isso e a consciência universal, que fala por meio das mais exíguas criaturas, emudeceu no homem.
Referimo-nos à nossa espécie jactanciosamente como "homo sapiens" mas, se sequer o conhecimento mais primitivo, instintual, conta entre nossas "habilidades" e nossa prepotência não nos permite humildade ante a dimensão de nossa ignorância e inocência em nossos atos, dois predicados inseparáveis da sabedoria, o "sapiens" é mais uma evidência de nossa "atasthalía", a "louca presunção" de que Homero fala na "Odisséia". Por isso os companheiros de Ulisses massacraram e devoraram os touros de Hélios Hipérion, o deus Sol, e pagaram com a própria destruição. É a mesma presunção que tem feito o homem, hoje, depredar além da medida da necessidade, que qualquer animal irracional da Terra conhece - exceto o maior deles, o que não tem mais lugar entre eles. Se a reflexão do poeta grego não nos inspira a repensarmos nossas atitudes, não nos falta aviso na outra ponta de nossa herança greco-cristã: Apocalipse 11:18 adverte que Deus "arruinará os que arruínam a Terra". Quer se acredite ou não em Deus, estamos atacando o campo e as reses de algo além da nossa compreensão e que deveria ser reverenciado como sagrado.
Cego de egoísmo, de orgulho, de louca presunção, marginal da Natureza, geno-suicida, e inapto para as consecuções extraordinárias de poucos da própria espécie (o que mostra a excepcionalidade das "nossas" qualidades distintivas) - "você consegue?" -, não seria o caso de nos perguntarmos se aquilo com que nos trombeteamos acima dos animais, a "racionalidade", não é, na verdade, uma doença mental do instinto do mais trágico dos seres - aquele pra quem agora já é um problema a naturalidade do mero existir?
| Desmatamento usando queimada para abertura de pastagem. Fonte: Greenpeace/Daniel Beltra (30/05/2009) |


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