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Considerando que teriam sido vendidos ilegalmente 366 bois (2014-15), a matança ilegal de animais teria sido de pouco mais de 1 boi/dia, apenas por conta de um único frigorífico indiciado.
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| Comparação com o centro de Manaus. |
Considerando o peso médio do chamado "boi gordo", um boi que tem 468 kg na fazenda chega ao frigorífico com 440 kg e, após abate, "rende" 255 kg de carcaça quente. Dela saem 250 kg de carcaça fria (cerca de 50% do peso do animal vivo, ou 17 arrobas), de onde se retiram os "cortes":
- traseiro especial: 120 kg --> 89,6 kg de carne (sendo 4,4 kg de filé - um boi pra 4,4 kg de filé!)
- dianteiro: 95 kg --> 69,2 kg de carne
- planta de agulha: 35 kg --> 28,00 kg de carne
Ou seja:
468 kg/boi --> 186,8 kg de carne (c. 39,91% de aproveitamento)
Note-se que o boi perde quase 30 kg entre a fazenda e o abate (uma delícia de passeio, não?).
Considerando que uma arroba equivale a 15 kg (14,688 quilogramas), e a arroba de boi gordo tem preço médio (2015) de R$ 143,60, um único boi gordo (468 kg) tem 17 arrobas (conta-se apenas a carcaça) e é vendido a R$ 2.441,20. Os 366 bois devem ter rendido R$ 893.479,2 (quase 1 milhão de reais) aos fornecedores do frigorífico. O MPF calcula um valor de 3,6 milhões obtido na comercialização dessa carne - mais de 4 milhões é a movimentação financeira desta ação denunciada pelo MPF, isoladamente.
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| Novo Progresso (PA) - Exemplo de devastação causada para abertura de pastagem. Fonte: O Globo, foto de André Penner/AP. |
Dos 366 bois teriam sido "produzidos" 68.361, 04 kg de carne. Para que essa carne fosse posta no mercado, podem ter sido gastos entre 1.025.415.601,5 (bilhão) de litros (no mínimo) e 2.637.835.200,00 de litros (em média) de água, equivalente a entre 410,16 e 1.055,13 piscinas olímpicas cheias. Essa quantidade de água permite o cultivo de entre 2.888,5 e 7.430,52 TONELADAS de feijão (compare com as cerca de 68 toneladas de carne resultante). Se considerarmos que 70% da soja produzida vai pra ração, fica ainda mais claro que essa matança não atende à suposta motivação de alimentar as pessoas - pelo contrário, retira alimento de circulação.
O cálculo acima foi "otimista": na Amazônia, ocupa-se um espaço maior por cabeça de boi e é provável que o "boi gordo" não seja tão gordo assim. Na realidade, o espaço ocupado na pecuária é maior (mais desmatamento) pra produzir ainda menos carne a ser posta no mercado. Claro, o pecuarista ganha menos ainda, o que só realça o disparate do custo de "produção", do resultado econômico, em comparação com os danos - a externalidade que não entra nos cálculos, porque não convêm (o atual Ministro da Agricultura, em 2010, teria dito que o aumento de 40% de desmatamento da Floresta Amazônica não significava absolutamente nada pra ele: "não me sinto nem um pouco culpado pelo que estamos fazendo aqui").
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Não é só a ineficiência na produção de alimentos; é o desmatamento; é a grilagem; é o trabalho [análogo ao de] escravo (80% dos escravos modernos estão na pecuária); é a retirada de alimento da população. É a cadeia de irregularidades, se não no âmbito da lei, no âmbito da ética, que a pecuária (não só a manifestamente ilegal) põe em desdobramento: efeito colateral nas relações econômicas, na subversão da ordem legal, nos efeitos nocivos subsidiários ao meio ambiente. Como "ambiente", em latim, quer dizer "o que está em volta de nós", isso tudo deveria nos importar - mas não é o que se vê.
(É claro que não se desmata menos, não se desperdiça menos água, não há menos incoerência na chamada "conversão alimentar" na pecuária legal do que há na ilegal. O absurdo é praticamente o mesmo - apenas que o ganho em impostos que a legalidade propicia não acresce em racionalidade e moralidade o apoio governamental e social dado à pecuária legal: legalidade não atesta bom-senso).
A atuação do MPF, neste caso, é exemplar. É pena que seja quase apenas simbólica. Mas não compete ao governo a responsabilidade por esse estado de coisas - porque sua atuação, na melhor das hipóteses, afeta apenas uma mínima parcela do total de irregularidades que ocorrem em sociedade. A lei é apenas um subproduto da cultura - não cabe a um único aspecto do fenômeno humano a tarefa de resolver problemas que se devem a sua integralidade. Como disse Lao Tsé, em "Tao Te Ching", "caminhos parciais não conduzem à meta total".
É a nós que cabe matar de inanição a cultura do crime, do jeitinho brasileiro, retirando nosso apoio, instantânea ou paulatinamente (mas consciente e metodicamente), com que concorremos comissiva ou omissivamente para o sucesso de poucos gananciosos (mesmo legalizados) em detrimento de toda a sociedade, não só a atual mas a futura, não só contra a coletividade humana mas contra a própria Natureza.
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Pôr carne na panela, a pretexto de alimento, já é um contra-senso. Pôr na churrasqueira (por mero prazer), já é falta de ética.
Como disse David Henry Thoreau, em "A desobediência civil", "um homem não tem a obrigação de fazer tudo, mas alguma coisa; e o fato de não poder fazer tudo não o obriga a fazer alguma coisa errada", "é seu dever, pelo menos, manter as mãos limpas e, mesmo sem pensar no assunto, recusar o apoio prático ao que é errado".


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