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| Ed. Cléofas, 6ª. ed. (2018, 144pp) |
"Quantas igrejas cristãs estão cumprindo a profecia do Novo Testamento de que 'todas as gerações' [chamarão Maria de] 'Bem-aventurada'?" (pg. 18)
"Sem [Maria], nossa compreensão da salvação nunca será familiar, pois terá parado na antiga Aliança, onde a paternidade de Deus era considerada uma simples figura e a filiação do homem era mais parecida com servidão." (pg. 73)
Nossa Senhora, como Cristo no mundo, é mesmo um "sinal de contradição" entre os cristãos. Embora Lutero, iniciador do Protestantismo, houvesse defendido a dignidade singular de Maria, como Mãe de Deus e imaculada (nascida sem pecado), nos meios evangélicos, porém, ou se silencia a seu respeito, ou se acirram os ânimos contra seu culto e sua posição doutrinária entre católicos e ortodoxos. Acusações de "mariolatria", de que a devoção mariana faz da desconhecida mãe de Jesus uma "deusa", inclusive com seus "ídolos", chegaram mesmo às "vias de fato" do vilipêndio religioso, como o famoso "Chute da Santa", de 12 de outubro de 1995 (dia de N.Sª. da Conceição Aparecida), por um pastor da Igreja Universal do Reino de Deus, em rede televisiva nacional. Veja aqui a matéria do Jornal Nacional (Youtube). Karl Barth, importante teólogo protestante, chegou a afirmar que a mariologia era uma "excrescência da teologia" e que deveria ser cortada como um tumor, e que, onde houvesse o culto de Maria, lá não estava a igreja de Cristo.
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| Scott Hahn (1957 - ...), exímio orador e escritor prolífico, conta com uma biblioteca pessoal de 40 mil livros! |
Contudo, ao lado dos diálogos ecumênicos, promovidos especialmente pela Igreja Católica, também vemos conversões de antigos opositores da "mariolatria" para a condição de defensores da "mariologia". O autor cita uma na página 110 mas a dele próprio dá um tom especial a este livro. A história de como Hahn passou de pequeno infrator para pastor presbiteriano e de evangélico para católico é contada noutro livro seu, "O banquete do Cordeiro" [resenha aqui], em que narra como sua especialização em Apocalipse (Hahn é doutor em Sagradas Escrituras, conhecedor do hebraico e do grego) levou-o, ao investigar a missa (indo escondido para observá-la), a se converter ao Catolicismo. Em estilo leve e conversante, também em "Salve, Santa Rainha", Hahn conta seus primeiros contatos domésticos com o culto de Maria, e é a partir de uma visão de família que procura abordar a relação do cristão com a mãe de Cristo e da Igreja.
Além da Apresentação (pelo prof. Felipe de Aquino, da Canção Nova) e de um prefácio, o texto propriamente do autor pode ser dividido em 5 seções (não identificadas no livro). A Introdução (1ª. "seção") dá o tom da obra. Nela, Hahn faz uma reflexão sobre sua relação com a própria mãe, conta um importante episódio do rosário de sua avó e esboça o plano da argumentação. Como ex-protestante, e entendendo a importância de fundar o diálogo a respeito de Maria sobre a Bíblia, Hahn faz uma declaração desafiadora: "Maria enche as páginas das Escrituras, desde o começo do primeiro livro até o final do último".
| Grande Panagia, ícone do séc. XIII, Yaroslav, Rússia. A imagem também remete ao tipo da arca da Aliança: Maria também foi o receptáculo da Palavra de Deus (Cristo). |
A 2ª. "seção" contém a argumentação bíblica. Em 4 capítulos, Hahn fala (cap. I) da chave tipológica que permite ver a prefiguração de Maria no Antigo Testamento. De fato, esse foi um método utilizado pelos próprios escritores do Novo Testamento para discernir, como diria mais tarde Santo Agostinho, os acontecimentos do Novo Testamento "escondido[s] no Antigo", e que eles, ao escreverem o Novo, revelaram nele o Antigo. Exemplo disso é a prefiguração de Jesus em Adão; o batismo cristão, nas águas do dilúvio; etc. Hahn trata aqui de 3 tipos marianos: Eva, a mãe de todos os viventes (cap. II); a arca da Aliança (cap. III); e a Rainha-Mãe da tradição monárquica semita, que, entre os judeus, começou com Salomão (cap. IV). Ele mostra como cada um desses tipos está intrinsecamente relacionando com o drama da Redenção. E, de fato: "O papel de Maria não tem sentido algum se considerado fora do contexto da história da salvação, pois não é acidental no plano de Deus. Deus quis fazer que seu ato redentor fosse inconcebível sem ela." (Grifo meu, para bom entendedor.)
Na 3ª. "seção", Hahn trata de outras questões relacionadas à mariologia. Faz uma exposição (cap. V) sobre o sentido de "dogma" e explica os clássicos 4 dogmas marianos: o da "Imaculada Conceição", quer dizer, de Maria concebida sem pecados, "toda santa" ("Panagia", em grego); o de Maria como "Mãe de Deus" ("Theotókos", em grego); o da "Virgindade Perpétua", isto é, Maria como a sempre-virgem ("Aeiparthénos", em grego) - e aqui entra a discussão sobre os "irmãos de Jesus" -; e, por fim, o polêmico dogma do arrebatamento de Maria, em corpo e alma, ao Céu, a Assunção - que vem da primeira e única vez em que um Papa se valeu da execrada "infalibilidade papal", desde o Concílio do Vaticano I. Nos próximos dois capítulos, Hahn mergulha no sentido de nossa salvação como adoção filial por meio de nossa incorporação em Cristo, o "mistério da Igreja", e reflete sobre o papel de Maria como mãe da Cabeça da Igreja, que é Cristo, e de seus membros, os fiéis. "Detalhes implícitos são muitas vezes mais importantes para uma narrativa, pois mostram o que o narrador deu por certo [...] Sem sua presença oculta, a narrativa [incluindo a bíblica] se desintegra."
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| "São Domingos de Gusmão recebe o rosário", pintura da freira dominicana Plautilla Nelli (1524-1588). |
A 4ª. "seção", apenas o cap. VIII, traz uma consideração sobre a apologética na forma de um relato sobre um incidente pessoal: o recém-convertido Hahn se viu numa saia-justa num encontro com o professor de seu antigo seminário protestante quando teve de debater sobre o pomo da discórdia das duas teologias: Maria.
Por fim, fruto do incidente do rosário ("terço") de sua avó, Hahn dedica um apêndice (5ª. "seção") às "veneráveis contas", em que conta a origem e como rezar com essa que se tornou sua expressão de devoção mariana favorita. Não uma enfiada de rezas metralhadas inconscientemente, mas uma meditação sobre os mistérios de nossa redenção pela contemplação da vida de Jesus. "Quando repetidos em forma de oração, [os mistérios] nos fazem focar, nossa mente e nosso coração, naqueles eventos da vida de Jesus, a ponto de tentarmos mesmo nos colocar dentro daquelas cenas, imaginando como seria se estivéssemos presentes lá". "Os católicos deveriam mergulhar nas Escrituras para que cada mistério do terço os levasse a inúmeras associações bíblicas, tanto do Antigo como do Novo Testamento". Afinal, citando o Catecismo, a meditação nos dará respostas, mas nos preparamos para ela na leitura.
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O "Chute da Santa", citado acima, causou revolta mesmo nos meios evangélicos. O diálogo ecumênico e iniciativas teológicas protestantes sobre Maria também têm apontado para um dia em que, como diz Hahn, já não se terá vergonha da própria Mãe. Veja aqui as emocionantes declarações de um pastor evangélico sobre Maria. (Youtube).



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