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Ed. Thomas Nelson Brasil, 288pp (2017)
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"A maioria de nós não examina o cristianismo a fundo para descobrir o que ele realmente diz: nós o abordamos na esperança de encontrar nele apoio para as nossas próprias perspectivas partidárias." (pg. 126)
"Se você não dá ouvidos à Teologia, isso não vai significar ausência de ideias sobre Deus, mas sim a presença de um monte de ideias erradas sobre ele - ideias más, confusas, obsoletas. Pois uma grande quantidade de ideias sobre Deus, disseminadas hoje como se fossem novidades, não são nada além daquelas que os verdadeiros teólogos testaram séculos atrás e rejeitaram." (pg. 206)
Considerada como "a obra religiosa mais influente do séc. XX", "Cristianismo puro e simples", ou, como a chamou o autor, em inglês, "Mero Cristianismo" (Mere Christianity), já empolga por suas circunstâncias. Lewis ("Jack" para os íntimos) é o mesmo autor das famosas "Crônicas de Nárnia", um clássico da literatura fantástica. Ele também teve o papel de "parteiro literário" de outra obra de fantasia, que mexe com o público até hoje, "O senhor dos anéis", de J. R. R. Tolkien, com quem tinha uma forte e inspiradora amizade. Além disso, o livro é uma apologética do cristianismo, por um... ex-ateu! Lewis foi "convertido" durante um passeio noturno entre árvores por... Tolkien, católico fervoroso. Por fim, o momento de sua elaboração nos causam arrepios: o texto se origina de seus discursos na estação da Força Aérea Real, depois melhor elaborados para transmissões radiofônicas pela BBC, durante a Segunda Guerra Mundial, pouco após a Inglaterra ter estado sob intenso bombardeio aéreo pela Luftwaffe nazista.
Irlandês de Belfast, Lewis foi professor de "Literatura Medieval e Renascentista" em Oxford e crítico literário, mas era um relativo desconhecido até a publicação de seu "O problema do sofrimento", em 1940, já como apologista cristão. O drama de sua conversão do ateísmo para o teísmo (crença em Deus) e, daí, para o cristianismo (crença em Cristo como Deus encarnado) era ignorado pelo público. Profeta relutante, logo "Lewis tornou-se um porta-voz dessa doutrina em grande parte por causa do silêncio ou da ininteligibilidade daqueles que, na opinião dele, ocupavam uma posição melhor que a sua para lidar publicamente com questões religiosas e teológicas", como diz McGrath na biografia "A vida de C. S. Lewis - do ateísmo às terras de Nárnia". O interessante é que sua conversão se deu "por causa e por intermédio de seus interesses literários". Foi assim:
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| Clive Staples Lewis (1898-1963), fotografia de 1948. |
Lewis já vinha numa luta interior em que, num determinado ponto, viu que "já não me era permitido brincar com a filosofia". Ele "havia chegado à conclusão de que 'a teoria menos sujeita a objeções' era 'postular alguma espécie de Deus'". Ele saía de uma "compartimentalização mental que possibilita que pensamentos problemáticos e perturbadores sejam trancafiados para não perturbarem o dia a dia" para uma posição que ampliava sua visão. Como relata McGrath, Lewis se descreveu como um boneco de neve derretendo, sensação nada agradável que resultou na poderosa imagem de "O leão, a feiticeira e o guarda-roupa", em que o derretimento da neve, significando a quebra do poder da feiticeira, anunciava o retorno de Aslan, o leão (símbolo de ninguém menos que Jesus Cristo). Era a diminuição de sua resistência ao "advento do divino".
Mas ele também havia sido tocado pelo "apelo racional e imaginativo" do cristianismo, especialmente na literatura. Observou que "os autores baseados numa visão cristã pareciam oferecer o mais flexível e persuasivo 'acordo com a realidade'". Para ele, "perder de vista 'o sentido religioso'", como autores modernistas do pós-guerra (Virginia Woolf, Bernard Shaw e H.G. Wells, etc.) haviam feito, "era perder qualquer 'sentido da importância dos atos humanos'". Outros escritores já haviam se convertido, como G.K. Chesterton, autor dos clássicos "Ortodoxia", "O Homem Eterno" e criador do detetive Pe. Brown, ao catolicismo; e T. S. Eliot, autor de "Terra desolada", ao anglicanismo. Outro convertido, Waugh, falou da "impressionante capacidade própria da fé cristã de entender o mundo em geral e a natureza humana em particular" e mais: "'A conversão é como sair pela chaminé de um mundo de espelhos, onde tudo é uma caricatura absurda, para entrar no mundo real criado por Deus; depois começa o processo delicioso e ilimitado de explorá-lo'". De fato, uma das razões que atraíram Lewis à literatura medieval foi "sua impressão de que essa literatura testemunhava um entendimento do esquema maior das coisas", uma "unidade de ordem suprema", como em "A Divina Comédia". Então, Tolkien aparece...
Os primeiros contatos com Tolkien, “um 'sujeito sereno, pálido e fluente'", professor de inglês antigo (anglo-saxão) e medieval, foram tímidos. Porém, logo seus interesses comuns os fizeram se reunir com freqüência, o que deu origem a um clube de escritores mais tarde, os Inklings, para compartilharem seus trabalhos literários. Como Tolkien admitiu, Lewis foi o apoiador moral e entusiasta de suas obras que lhe estimulou a concluir e publicar "O hobbit" e "O senhor dos anéis", cujos manuscritos originais foram lidos para Lewis e seu deleite (em 61, Lewis escreveu uma carta à universidade indicando Tolkien como candidato ao Nobel de Literatura, por sua "famosa trilogia romântica"). Tolkien havia estado preso num espiral de meticulosade perfeccionista, no qual suas obras nunca se completavam. Lewis, escritor de pena leve, foi a amizade certa para quebrar essa armadilha. "Uma dívida", disse Tolkien, "impagável".
Mas Tolkien livrou Lewis de um impasse ainda mais perigoso. Certa noite, foram jantar juntos, mais um outro conhecido (Dyson), e, depois, foram caminhar pelo Addison's Walk, na própria universidade. A conversa, claro, era sobre Deus e o cristianismo. Era um sábado, 19 de setembro de 1931, uma noite "calma e quente"; soprou uma ventania que os obrigou a se abrigarem, vento que sugeriu a Lewis "a misteriosa presença de Deus". Depois foram para o alojamento de Lewis e o debate prosseguiu até às 3 da madrugada (Dyson ficou até às 4). Tolkien ajudou Lewis a vencer seu preconceito contra a "mitologia cristã", fazendo-o ver, pelo sentido técnico de mito, não como uma "mentira sussurada através da prata", de que forma a narrativa bíblica revela a verdade através de uma linguagem mítica. MacGrath: "Tolkien ajudou Lewis a perceber que o problema estava não em sua incapacidade racional de entender a teoria, mas em sua incapacidade imaginativa de captar o significado dela. A questão não dizia respeito primariamente à verdade, mas ao significado. Quando lidava com a narrativa cristã, Lewis se limitava à sua razão pessoal quando deveria abrir-se para as intuições mais profundas de sua imaginação" (grifo meu). E Lewis: "'A história de Cristo é simplesmente um mito verdadeiro: um mito que atua em nós da mesma forma que os outros mitos, mas com essa tremenda diferença de que isso realmente aconteceu'" (grifo de Lewis). Já não lhe pareciam coisas "bobas e chocantes". Daí, outros desdobramentos o prepararam para se tornar uma "voz religiosa autêntica", "a voz da fé" das transmissões radiofônicas dos tempos da Guerra.
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| Addison's Walk, do livro "A vida de C. S. Lewis - do ateísmo às terras de Nárnia" (Alister McGrath, 2013). |
Outra circunstância interessante é a de que Lewis é o autor das famosas "Crônicas de Nárnia", obra que ficou ainda mais conhecida com o filme de 2005, distribuído pela Walt Disney. MacGrath: "As crônicas de Nárnia são um recontar imaginativo da grande narrativa cristã, detalhada com ideias que Lewis absorveu da tradição literária cristã. Os temas teológicos básicos que Lewis apresentou em 'Cristianismo puro e simples' aparecem transpostos para sua forma narrativa original em Nárnia, permitindo que a estrutura profunda do mundo seja vista com clareza e brilho: uma criação boa e bela é estragada e destruída pela queda, na qual o poder do criador é negado e usurpado. O criador entra então na criação para tomar o poder do usurpador e restaurar tudo mediante um sacrifício redentor. Todavia, mesmo depois da vinda do redentor, a luta contra o pecado e o mal continua, e não terminará até a restauração e transformação final de todas as coisas. Essa metanarrativa cristã — que os autores cristãos antigos chamavam de 'economia da salvação' — proporciona uma estrutura narrativa e um suporte teológico para as múltiplas histórias entretecidas nas crônicas de Nárnia" (grifos meus). Quer dizer, para compreender o mundo de Nárnia, a chave é "Cristianismo puro e simples".
apresentassem uma visão que fosse além das denominações e atingisse a totalidade da nação", algo que Lewis, com sua proposta de "cristianismo puro e simples" já vinha fazendo, tanto nas palestras para a R.A.F. (promovidas pela Catedral de São Paulo) como no seu sucesso literário do ano anterior. A BBC também teve problemas com oradores diretamente ligados às igrejas, o que também reforçou o perfil de Lewis, "descoberto" por causa do livro sobre o sofrimento, publicado no primeiro ano dos bombardeios. Mais tarde, Lewis dirá: "Fiz essas palestras não porque sou alguém especial, mas porque fui convidado a fazê-las. Acho que me convidaram principalmente por duas razões: primeiro, por eu ser um leigo, não um clérigo; e, segundo, por eu ter sido um não cristão durante muitos anos. Pensou-se que esses dois fatos possivelmente me capacitariam a entender as dificuldades que pessoas comuns têm sobre o assunto". "Descoberto", Lewis foi reconhecido como um bom escritor mas... será que se daria bem com um microfone? Estava em jogo a "manutenção do moral nacional".
A experiência com a R.A.F. foi importantíssima. Desafiado a explicar Teologia em linguagem não-acadêmica, Lewis passou a compreender a necessidade de falar a linguagem da platéia e de não pressupô-la "a priori" mas descobri-la pela experiência, como disse. Lewis: "Devemos traduzir cada fragmento de nossa teologia em vernáculo. Isso é muito cansativo, e significa que podemos dizer muito pouco em meia hora, mas é essencial. É também o maior serviço que podemos prestar ao nosso próprio pensamento. Eu me convenci de que se não conseguimos traduzir nossos pensamentos numa linguagem não acadêmica, então nossos pensamentos são confusos. A capacidade de traduzir é o teste de que realmente entendemos o nosso próprio significado". Embora tenha se considerado um "completo fiasco", não foi o que a R.A.F. achou. Chamado novamente, Lewis foi ganhando prática e, quando foi fazer o teste na BBC, mesmo achando sua voz estranha (e mais tarde alguns ouvintes reclamaram de seu "sotaque de Oxford"), a emissora ficou satisfeita. - A única gravação sobrevivente da transissão de Lewis pode ser ouvida aqui (Youtube).
Afinal, o livro, de que trata?
A obra está dividida em quatro seções ("livros"): "O certo e o errado como indícios para a compreensão do sentido do universo" ("Livro I", com 5 capítulos); "No que acreditam os cristãos" ("Livro II", também com 5 capítulos); "Conduta cristã" ("Livro III", com 12); e "Além da personalidade ou os primeiros passos na doutrina da Trindade" ("Livro IV", com 11 capítulos"). Há também um prefácio, do próprio Lewis, muito esclarecedor sobre a obra e seu título. Fala da origem do texto (de que também fala a Introdução); do papel apologético de uma definição de "cristianismo puro e simples", dos problemas de chegar a um "MDC" da fé - "Uma das coisas sobre as quais os cristão discordam é acerca da importância de sua discordância", :-) -, sobre o problema da palavra "cristão" e, enfim, faz a analogia do saguão e do verdadeiro local para morar.
O Livro I faz uma abordagem sem qualquer viés religioso e conduz o leitor, pelo raciocínio, a um entendimento básico sobre o que é chamado "via antropológica" para inferir a existência de Deus. Lewis responde também aos críticos que contrapõem o instinto gregário e as convenções sociais à ideia de uma lei da natureza humana; alerta para a confusão que podem gerar usarmos acepções distintas para a ideia de "lei" quando falamos de leis físicas e naturais - nesse ponto, faz a algoria do carteiro -. Trata ainda da visão intermediária entre a visão religiosa e a materialista, que propõe, na verdade, um "Deus domesticado" no lugar do "Deus inquietante" das religiões teístas. O capítulo 5 faz a transição para o livro II, pela constatação de nosso estado moral em face da lei assumida nos capítulos precedentes.
O Livro II trata da questão do mal, derivada de nosso entendimento de Deus, e de que forma o cristão vê a causa e a solução da tragédia do universo. Ele começa fazendo uma confissão: "Quando eu era ateu, tinha de tentar convencer a mim mesmo de que a maioria das pessoas da humanidade sempre esteve errada sobre a questão que [mais] lhe interessava". Então apresenta o que se opõe ao pensamento do "materialista europeu ocidental moderno": o panteísmo e o teísmo dos judeus, cristãos e muçulmanos. Daí entra na questão alarmante do "por que esse mundo desandou", sobre a justiça divina. Mostra que, sobre essa questão, um "cristianismo água com açúcar" e o espantalho do cristianismo que forjam para atacá-lo distorce toda a discussão. "A realidade, na verdade, geralmente é algo que você não teria imaginado [...] [O cristianismo é] uma religião que você jamais teria imaginado". Trata do sentido de "bom" e, novamente uma alegoria, apresenta a visão cristã de que o mundo está em uma "guerra civil", muito interessante para exlicar o drama da Redenção, que culmina na famosa abordagem da "alternativa chocante" sobre a identidade de Jesus, melhor explicada no capítulo seguinte, "O penitente perfeito", e que nos afeta da forma expressa no último capítulo da seção: "As pessoas muitas vezes se perguntam quando será dado o próximo passo da evolução - o passo para além do ser humano - mas, na visão cristã, ele já foi dado. Em Cristo, uma nova espécie de ser humano surgiu [...]".
A longa seção do Livro III trata da moral cristã. Começa com a instrutiva alegoria da fragata, fala das virtudes cardeais, isto é, que constituem o eixo, "a dobradiça da porta" da moralidade, do ponto de vista puramente humano. Discute em seguida a "Regra de Ouro" como fundamento da moralidade social. Em três capítulos, fundado numa visão oposta à da Psicanálise, Lewis trata da moral sexual e do casamento cristão. "O cristianismo é praticamente a única das grandes religiões que aprova completamente o corpo - que crê que a matéria é boa". Aqui, mais uma de suas imbatíveis alegoria, a da moralidade da... comida! Os próximos dois capítulos tratam dos dois grandes desafios do cristianismo: além da impopular moral sexual, somos defrontados com a exigência cristã do perdão e da humildade. Os últimos capítulos dessa seção tratam das virtudes teologais, com uma importante discussão sobre o significado de fé, em 2 capítulos, na qual retoma sua própria experiência de conversão (como tratamos acima): "A batalha estava sendo travada entre fé e razão, de um lado, e emoção e imaginação, de outro".
A última seção, do Livro IV, é a mais intensa teologicamente. Lewis discute a importância da Teologia, como ciência de Deus; aborda uma compreensão do "Deus triúno", a espinhosa questão da Trandade; o papel que a diferença entre tempo e eternidade tem no nosso senso comum religioso; trata novamente de nossa Redenção, "o fim do pesadelo", e o modo como se dá; e, grande questão que muitos opõem ao cristianismo, responde a por que há cristãos ruins e descrentes melhores, além da diferença entre ser bonzinho/decente e ser... salvo. "Deus se tornou homem para transformar as criaturas em filhos, ou seja, não simplesmente para produzir homens melhores, mas sim uma nova espécie de ser humano." Esta grave seção, que trata de problemas tão tensos do cristianismo, mostra como Lewis consegue nos entreter com temas difíceis de uma forma conversante e com a clareza lógica de um cristal!
Abaixo, uma frase que não é do livro mas que expressa bem o sentimento cristão, especialmente após tê-lo lido:
"Eu acredito no cristianismo como acredito que o sol surgiu, não apenas porque o vejo, mas porque por meio dele vejo todas as outras coisas".







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