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quarta-feira, 27 de maio de 2020

Resenha: Cristianismo puro e simples (C. S. Lewis, 1942-52)

Ed. Thomas Nelson Brasil, 288pp (2017)
"A maioria de nós não examina o cristianismo a fundo para descobrir o que ele realmente diz: nós o abordamos na esperança de encontrar nele apoio para as nossas próprias perspectivas partidárias." (pg. 126)

"Se você não dá ouvidos à Teologia, isso não vai significar ausência de ideias sobre Deus, mas sim a presença de um monte de ideias erradas sobre ele - ideias más, confusas, obsoletas. Pois uma grande quantidade de ideias sobre Deus, disseminadas hoje como se fossem novidades, não são nada além daquelas que os verdadeiros teólogos testaram séculos atrás e rejeitaram." (pg. 206)

Considerada como "a obra religiosa mais influente do séc. XX", "Cristianismo puro e simples", ou, como a chamou o autor, em inglês, "Mero Cristianismo" (Mere Christianity), já empolga por suas circunstâncias. Lewis ("Jack" para os íntimos) é o mesmo autor das famosas "Crônicas de Nárnia", um clássico da literatura fantástica. Ele também teve o papel de "parteiro literário" de outra obra de fantasia, que mexe com o público até hoje, "O senhor dos anéis", de J. R. R. Tolkien, com quem tinha uma forte e inspiradora amizade. Além disso, o livro é uma apologética do cristianismo, por um... ex-ateu! Lewis foi "convertido" durante um passeio noturno entre árvores por... Tolkien, católico fervoroso. Por fim, o momento de sua elaboração nos causam arrepios: o texto se origina de seus discursos na estação da Força Aérea Real, depois melhor elaborados para transmissões radiofônicas pela BBC, durante a Segunda Guerra Mundial, pouco após a Inglaterra ter estado sob intenso bombardeio aéreo pela Luftwaffe nazista.

domingo, 26 de outubro de 2014

Resenha: Laranja Mecânica (Anthony Burgess, 1962)

Ed. Aleph (2004), 200 páginas
"Pode não ser bom ser bom, pequeno 6655321. Ser bom pode ser horrível [...] Eu sei que perderei muitas noites de sono por causa disso. O que Deus quer? Será que Deus quer insensibilidade ou a escolha da bondade? Será que o homem que escolhe o mal é talvez melhor do que um homem que teve o bem imposto a si?" (O chapelão* da Prestata)

Ora ora ora ora, drugui*(amigo) leitor! Pois não é que este livro também é, tipo assim, sobre essas veshkas*(coisas) sacrossantas, hein? O que aquele bizumni*(maluco) do Burgess tinha na sua gúliver*(cabeça) quando o escreveu?

Este livro talvez não chegasse às suas rukas*(mãos) não fosse o cine-cínico*: o próprio autor skazatou*(disse) que o filme homônimo de Stanley Kubrick, de 1971, foi que deu popularidade à obra, tipo assim, glorificando muito pol*(sexo) (o velho entra-e-sai) e a ultraviolência. Burgess disse que o filme facilitou o entendimento errado da obra e que esse desentendimento iria persegui-lo pelo resto de sua jizna*(vida).

domingo, 28 de setembro de 2014

Resenha: A revolução dos bichos (George Orwell, 1945)

Companhia das Letras (2007), 152 páginas
"Eram sempre os porcos que propunham resoluções. Os outros bichos aprenderam a votar, mas nunca conseguiram imaginar uma resolução por conta própria".

Eric Arthur Blair, mais conhecido pelo heterônimo "George Orwell", é o corajoso autor desta fábula estarrecedora, inspirada na tradição do frígio Esopo, do irlandês Jonathan Swift e em sua aguda percepção política que transcende seu tempo. Reconhecendo que a linguagem simbólica dos mitos e fábulas,  a exemplo de "O cordeiro e o lobo" e "As viagens de Gúliver", seria veículo eficiente para externar seu apelo à consciência dos povos, Orwell nos eletriza com esse "conto de fadas" com o intuito claro de nos tirar do torpor em que permitimos a insidiosa apropriação do poder político e social por suínos que chafurdam no lodaçal da corrupção e da prepotência.

No prefácio da edição ucraniana de 1947, Orwell relata uma breve autobiografia em que apresenta os motivos pelos quais escreveu "Animal Farm: a Fairy Story" (literalmente "Fazenda animal: um conto de fadas"), as "experiências através das quais cheguei à minha posição política". Crucial para esse trabalho, iniciado em 1943, foi sua participação ao lado de trotskistas na Guerra Civil Espanhola, 1936/37, tendo sobrevivido a um tiro na garganta e tendo "muita sorte de deixar a Espanha com vida". Havia se tornado pró-socialista "mais por desgosto com a maneira como os setores mais pobres dos trabalhadores industriais eram oprimidos e negligenciados", e à pouca admiração teórica por uma sociedade planificada ajuntou-se a valiosa lição de como era "fácil para a propaganda totalitária controlar a opinião de pessoas educadas em países democráticos". De fato, diria mais tarde que "cada linha de trabalho sério que tenho escrito desde 1936 tem sido escrita direta ou indiretamente contra o totalitarismo". "Assim, os principais contornos da história permaneceram em meu espírito por seis anos antes que eu a escrevesse."