sexta-feira, 26 de junho de 2020

São João e o procurador

Há poucas passagens a respeito de João, o batizador, nas Escrituras mas são tão imbricadas na mensagem geral da Bíblia, a história de nossa salvação, que cada detalhe do que se diz a seu respeito fundamenta um mundo de meditações. Claro, foi com essa finalidade que se instituiu a comemoração de seu dia, 24 de junho, não um aniversário, mas um ensejo para reflexão.

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"Salomé" (1899), de Jean Benner
João é o precursor, de Jesus. E Jesus é a Verdade, como Ele mesmo afirmou. João é aquele que vai à frente, preparando os fundamentos para a Verdade. Esse preparo é a obediência à Lei em seu espírito, não à letra. A Lei, especialmente seu núcleo, os 10 mandamentos, nos dá por meio de revelação o que a razão mesma, a duras penas, também clama dentro do homem: "é assim!". São Paulo a chamou de "o tutor". O tutor exige de nós que saibamos a verdade sobre nós mesmos e nos revela o erro. João deixa claro que o resultado da observância fiel da Lei é a consciência do erro, da incapacidade de cumprir plenamente o que está prescrito (tem que ter estrutura pra isso!).

Assim, antes de o homem se lançar à busca da Verdade-mais-além, precisa ser fiel à verdade-mais-aquém, mais interior, ser fiel no pouco antes de o ser no muito, e, não sendo isso plenamente possível, ser humilde e arrepender-se de seus desacertos. O arrependimento (em grego, "transformação da mente") é a manutenção da alma, o reparo do baldrame para o edifício da Verdade. Sem isso, perdem-se os pré-requisitos, constrói-se uma casa sobre a areia. João é a propedêutica do Conhecimento. É a voz do testemunho diante de si mesmo: "eis, é isto!". "Verdade conhecida, verdade obedecida" (Platão). E essa propedêutica resulta na integridade do eu: ou assentimos com cada verdade descoberta, fazendo-a tijolo da ereção de nosso próprio desenvolvimento, por mais dolorosa que seja, ou seremos "frankensteins" de retalhos cadavéricos de verdades condicionais, meias-verdades e mentiras completas. Tal criatura não pode realmente adquirir Conhecimento, pela própria natureza da racionalidade: pedra sobre pedra.

"'Que é verdade?' Cristo e Pilatos" (1890), de Nikolai N. Ge
Então, um certo procurador fez a famigerada pergunta: "que é verdade?". E Jesus, diante dele, se calou, deixando que os próprios fatos respondessem a Pilatos. A "autoridade" não viu culpa alguma em seu réu. Chegou mesmo a admiti-lo em público. Mas seu interesse pela verdade não tinha alicerce suficiente para que pudesse erigi-la em sua própria vida: se bem que tentara sensibilizar a multidão, submetendo um inocente a uma terrível tortura; também apelou ao senso de ridículo e de auto-contradição dos acusadores, propondo uma troca entre um inculpe e um homicida (ó dilema cruel!); mas não podia assumir a responsabilidade pelo que ele mesmo já sabia ser verdade, de que não poderia condenar aquele homem odiado e destroçado na sua frente - tentara se livrar dEle enviando-o a outras instâncias até que, não podendo mais escapar ao peso do cargo, das honras de sua acariciada carreira no serviço público romano (que, para ele, constituía sua vida), encenou o gesto que entrou para a história como o epítome da indiferença: lavou as mãos! Gesto irônico: Jesus mesmo havia falado pouco antes que ritos exteriores não limpam uma consciência conspurcada. Tal nódoa moral se estampou naquele recôndito retrato, que deveria ser a imagem de Deus, mas que se tornou ainda mais hediondo que o de Dorian Gray.

Pilatos é o inverso de João. João disse que convinha que Cristo aumentasse e ele mesmo diminuísse. Pilatos tinha outros planos: "verdade" era só uma palavra em seu discurso e no seu trejeito de crítico, de questionador. E tendo outras prioridades, as gloríolas carreiristas, numa tentativa veleidosa de conciliar o que ele realmente queria que fosse (seus desígnios) com o que realmente era e não podia, em plena sanidade, renegar (Cristo, a Verdade), isto é, como lhe convinha que ele mesmo aumentasse e a Verdade diminuísse, surrou-a e alienou sua própria liberdade para tomar a decisão que lhe atendia: eis a Verdade (Jesus) e eis o meu verdadeiro eu (Barrabás) - deixo ao mundo, que odeia a verdade, o encargo de decidir a quem liberto! João batizava para ajustar o homem à verdade (arrependimento), e lhe dar vida nova na Luz. Pilatos batizou suas mãos para isentar-se e se preservar numa vida que é uma morte nas trevas! Jesus tinha se calado, e que silêncio! Quando a Verdade não nos informa, segue-se uma procissão de horrores!

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E quantas vezes não amordaçamos nosso São João interior, que clama no deserto de nossa alma? Quantas vezes não o lançamos num calabouço porque acusa nossa união adúltera com a mentira que desposamos na corte farsesca do nosso reizinho do coração? Quantas vezes não cedemos à hipnótica Salomé de nossas conveniências hedonísticas e simplesmente decapitamos aquela razão cuja boca nos constrange dizendo "transformai vossa mente"? Sem João, nossas veredas não se endireitam, nossa estrada não leva ao Cristo. E quem pode esperar um "mundo melhor" (salvação) sem pessoas verdadeiras, as que buscam a verdade e a assumem em cada pequeno lance de suas vidas? Como pode ser melhor um mundo de "procuradores" que não cuidam ("cura") da verdade como a meta principal ("pro") de suas vidas?

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