Há poucas passagens a respeito de João, o batizador,
nas Escrituras mas são tão imbricadas na mensagem geral da Bíblia, a
história de nossa salvação, que cada detalhe do que se diz a seu
respeito fundamenta um mundo de meditações. Claro, foi com essa finalidade que se instituiu a comemoração de seu dia, 24 de junho, não um aniversário, mas um ensejo para reflexão.
* * *
| "Salomé" (1899), de Jean Benner |
João é o precursor,
de Jesus. E Jesus é a Verdade, como Ele mesmo afirmou. João é aquele
que vai à frente, preparando os fundamentos para a Verdade. Esse preparo
é a obediência à Lei em seu espírito, não à letra. A Lei, especialmente seu núcleo, os 10 mandamentos, nos dá por meio de revelação o que a razão mesma, a duras penas, também clama dentro do homem: "é assim!". São Paulo a chamou de "o tutor".
O tutor exige de nós que saibamos a verdade sobre nós mesmos e nos
revela o erro. João deixa claro que o resultado da observância fiel da
Lei é a consciência do erro, da incapacidade de cumprir plenamente o
que está prescrito (tem que ter estrutura pra isso!).
Assim,
antes de o homem se lançar à busca da Verdade-mais-além, precisa ser
fiel à verdade-mais-aquém, mais interior, ser fiel no pouco antes de o
ser no muito, e, não sendo isso plenamente possível, ser humilde e
arrepender-se de seus desacertos. O arrependimento (em
grego, "transformação da mente") é a manutenção da alma, o reparo do
baldrame para o edifício da Verdade. Sem isso, perdem-se os
pré-requisitos, constrói-se uma casa sobre a areia. João é a propedêutica do Conhecimento.
É a voz do testemunho diante de si mesmo: "eis, é isto!". "Verdade
conhecida, verdade obedecida" (Platão). E essa propedêutica resulta na
integridade do eu: ou assentimos com cada verdade descoberta, fazendo-a tijolo da ereção de nosso próprio desenvolvimento, por mais dolorosa que seja, ou seremos "frankensteins"
de retalhos cadavéricos de verdades condicionais, meias-verdades e
mentiras completas. Tal criatura não pode realmente adquirir Conhecimento, pela
própria natureza da racionalidade: pedra sobre pedra.
| "'Que é verdade?' Cristo e Pilatos" (1890), de Nikolai N. Ge |
Então, um certo procurador fez a famigerada pergunta: "que é verdade?".
E Jesus, diante dele, se calou, deixando que os próprios fatos
respondessem a Pilatos. A "autoridade" não viu culpa alguma em seu réu.
Chegou mesmo a admiti-lo em público. Mas seu interesse pela verdade não
tinha alicerce suficiente para que pudesse erigi-la em sua própria vida:
se bem que tentara sensibilizar a multidão, submetendo um inocente a
uma terrível tortura; também apelou ao senso de ridículo e de
auto-contradição dos acusadores, propondo uma troca entre um inculpe e
um homicida (ó dilema cruel!); mas não podia assumir a responsabilidade pelo que ele mesmo já sabia ser verdade,
de que não poderia condenar aquele homem odiado e destroçado na sua
frente - tentara se livrar dEle enviando-o a outras instâncias até que,
não podendo mais escapar ao peso do cargo, das honras de sua acariciada
carreira no serviço público romano (que, para ele, constituía sua vida),
encenou o gesto que entrou para a história como o epítome da
indiferença: lavou as mãos! Gesto
irônico: Jesus mesmo havia falado pouco antes que ritos exteriores não
limpam uma consciência conspurcada. Tal nódoa moral se estampou naquele
recôndito retrato, que deveria ser a imagem de Deus, mas que se tornou ainda mais hediondo que o de Dorian Gray.
Pilatos
é o inverso de João. João disse que convinha que Cristo aumentasse e
ele mesmo diminuísse. Pilatos tinha outros planos: "verdade" era só uma
palavra em seu discurso e no seu trejeito de crítico, de questionador. E tendo outras prioridades, as gloríolas carreiristas,
numa tentativa veleidosa de conciliar o que ele realmente queria que
fosse (seus desígnios) com o que realmente era e não podia, em plena
sanidade, renegar (Cristo, a Verdade), isto é, como lhe convinha que ele
mesmo aumentasse e a Verdade diminuísse, surrou-a e alienou sua própria
liberdade para tomar a decisão que lhe atendia: eis a Verdade (Jesus) e
eis o meu verdadeiro eu (Barrabás) - deixo ao mundo, que odeia a verdade, o encargo de decidir a quem
liberto! João batizava para ajustar o homem à verdade (arrependimento), e
lhe dar vida nova na Luz. Pilatos batizou suas mãos para isentar-se e
se preservar numa vida que é uma morte nas trevas! Jesus tinha se
calado, e que silêncio! Quando a Verdade não nos informa, segue-se uma
procissão de horrores!
* * *
E
quantas vezes não amordaçamos nosso São João interior, que clama no
deserto de nossa alma? Quantas vezes não o lançamos num calabouço porque
acusa nossa união adúltera com a mentira que desposamos na corte
farsesca do nosso reizinho do coração? Quantas vezes não cedemos à
hipnótica Salomé de nossas conveniências hedonísticas e simplesmente
decapitamos aquela razão cuja boca nos constrange dizendo "transformai
vossa mente"? Sem João, nossas veredas não se endireitam, nossa estrada
não leva ao Cristo. E quem pode esperar um "mundo melhor" (salvação) sem
pessoas verdadeiras, as que buscam a verdade e a assumem em cada
pequeno lance de suas vidas? Como pode ser melhor um mundo de
"procuradores" que não cuidam ("cura") da verdade como a meta principal
("pro") de suas vidas?
Belíssimas reflexões.
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