O texto seguinte é de uma carta (ou parte dela) que teria sido enviada por um líder indígena ao então 14º. presidente dos EUA, Franklin Pierce, em 1855. Há controvérsias sobre a historicidade do artefato mas o teor da mensagem, autêntica ou não, confrontado com o contexto histórico, está acima da temporalidade de um provável evento, manifestando uma consciência profética que nos diz respeito mesmo, e principalmente, hoje em dia.
O líder Si'ahl (c. 1780 - 7/6/1866), si'áb (cacique) dos duwamish e suquamish, povos salish de língua lushootseed, conhecido guerreiro, de alta estatura e voz possante, que se fazia ouvir a mais de 1 km de distância, então idoso, travou amizade com o médico e cofundador da vila de Duwamps, David Swinson "Doc" Maynard. Maynard era uma exceção entre os cara-pálidas, defensor dos direitos civis e da igualdade entre brancos e índios. As ocupações de terras indígenas vinham descambando em carnificinas cruentas perpetradas por brancos contra índios, índios contra brancos e índios contra índios, intensificando as hostilidades ancestrais entre tribos rivais. Nessa conjuntura, a aliança entre o líder pele-vermelha e uma liderança cara-pálida era providencial para "ambos". Como sinal da bonomia dos brancos, Maynard propôs adotar o nome anglicizado do cacique para a cidade incipiente: rebatizaram a vila de "Seattle".
Em 1853, o território recebeu um novo governador, Isaac Ingals Stevens, encarregado de adquirir terras para o governo federal a fim de dar passagem a uma ferrovia. Stevens fez acordos com diversas tribos verbalmente mas, por escrito, as cláusulas eram outras. Já havia mais de 30 anos que os nativos vinham fazendo negócios com a Companhia da Baía de Hudson, severa mas honesta, e não estavam preparados para o comportamento dos representantes governamentais dos brancos. A forma como Stevens lidava com as negociações foi mais tarde reconhecida como "desleal, injusta, mesquinha e ilegal". Os tratados de Medicine Creek, Point Elliott e Walla Walla até mesmo desrespeitavam as instruções federais, assentando colonos e nativos lado a lado. Essa situação era dramática em vista das hostilidades crescentes dos brancos contra os índios. Era consenso geral que "matar um índio não era matéria de conseqüência mais grave que atirar num puma ou num urso". De fato, a perseguição atingiu também os brancos, que eram presos pelo crime de simpatizarem com os nativos. Stevens chegou a decretar lei marcial para impedir um juiz, Lander, de expedir "habeas corpus" para os "criminosos". Em pelo menos duas ocasiões, mandou prender o próprio juiz!
Maynard conseguiu um tratado mais favorável para Si'áhl e os suquamish, prometendo uma reserva maior em troca de suas terras aborígenes. Trocaram, porém, uma área correspondente ao tamanho que a cidade teria no séc. XX por quase nada. O governo não cumpriu o acordo. A insatisfação era geral entre os nativos. A tribo kamiakim declara guerra aos brancos e ameaça as tribos neutras (Si'áhl e os seus dentre eles), tratando-as como inimigas. Stevens põe lenha na fogueira: distingue os "índios bons" dos "índios maus" e promete recompensa por escalpos dos "maus". Patkanim, líder dos snohomish, inimigo jurado de
Si'áhl, promove a matança de seus escravos e prisioneiros. Consta que teria matado e escalpelado um prisioneiro portas adentro do próprio escritório de Stevens. Mais tarde, o cacique Lescay seria enforcado por um crime que não cometeu, sem consideração a sua apelação da sentença.
Maynard consegue dinheiro para comprar suprimentos e uma balsa para transportar Si'áhl e os duwamish para uma reserva privada. Também percorreu a região em busca de tribos neutras, sob risco pessoal, pois passava por terras kamiakim, e, os que se juntaram a ele, retiram-se de suas terras ancestrais por medo da crescente violência. A muito custo, os militares conseguiram uma trégua que logo foi quebrada por Stevens: "Nada, só a morte, é a punição devida pela perfídia deles", dizia. Em vista disso, a cidade foi atacada. O episódio é conhecido como "Batalha de Seattle" mas, de fato, foi mais uma guerra simbólica, uma vez que era evidente para os próprios índios a impossibilidade de enfrentar os fortes e os canhões dos brancos. As baixas foram pouquíssimas, de ambos os lados, mas os índios enfrentaram um outro inimigo que se encarregou de praticamente os exterminar: a epidemia de varíola de 1862 que, segundo alguns, teve o fomento do governo para progredir entre os nativos.
A carta
O ar é precioso para o homem vermelho, pois todas as coisas compartilham o mesmo sopro: o animal, a árvore, o homem – todos compartilham o mesmo sopro. Parece que o homem branco não sente o ar que respira. Como um homem agonizante há vários dias, é insensível ao seu próprio mau cheiro...Portanto, vamos meditar sobre sua oferta de comprar nossa terra. Se nós decidirmos aceitá-la, imporei uma condição: o homem branco deve tratar os animais desta terra como seus irmãos. (O que é o homem sem os animais? Se os animais se fossem, o homem morreria de uma grande solidão de espírito. Pois o que ocorre com os animais, em breve acontece com o homem.)
Há uma lição em tudo. Tudo está ligado. Vocês devem ensinar às suas crianças que o solo a seus pés é a cinza de nossos avós. Para que respeitem a terra, digam a seus filhos que ela foi enriquecida com a vida de nosso povo. Ensinem às suas crianças o que ensinamos às nossas: que a terra é nossa mãe. Tudo o que acontecer à terra acontecerá também aos filhos da terra. Se os homens cospem no solo, estão cuspindo em si mesmos.
Disto nós sabemos: a terra não pertence ao homem o homem é que pertence à terra. Disto sabemos: todas as coisas estão ligadas como o sangue que une uma família. Há uma ligação em tudo.
O que ocorre com a terra recairá sobre os filhos da terra. O homem não teceu a teia da vida: ele é simplesmente um de seus fios. Tudo o que fizermos ao tecido, fará o homem a si mesmo.
Mesmo o homem branco, cujo Deus caminha e fala com ele, de amigo para amigo, não pode estar isento do destino comum: é possível que sejamos irmãos, apesar de tudo. Veremos. De uma coisa estamos certos (e o homem branco poderá vir a descobrir um dia): Deus é um só, qualquer que seja o nome que lhe deem. Vocês podem pensar que o possuem, como desejam possuir nossa terra mas não é possível. Ele é o Deus do homem, e sua compaixão é igual para o homem branco e para o homem vermelho. A terra lhe é preciosa e feri-la é desprezar seu Criador. Os homens brancos também passarão talvez mais cedo do que todas as outras tribos. Contaminem suas camas, e uma noite serão sufocados pelos próprios dejetos.
Mas quando de sua desaparição, vocês brilharão intensamente, iluminados pela força do Deus que os trouxe a esta terra e por alguma razão especial lhes deu o domínio sobre a terra e sobre o homem vermelho. Esse destino é um mistério para nós, pois não compreendemos que todos os búfalos sejam exterminados, os cavalos bravios sejam todos domados, os recantos secretos das florestas densa impregnados do cheiro de muitos homens, e a visão dos morros obstruídas por fios que falam. Onde está o arvoredo? Desapareceu. Onde está a água? Desapareceu. É o fim da vida e o início da sobrevivência.
Como é que se pode comprar ou vender o céu, o calor da terra? Essa ideia nos parece, um pouco estranha. Se não possuímos o frescor do ar e o brilho da água, como é possível comprá-los?
Cada pedaço de terra é sagrado para meu povo. Cada ramo brilhante de um pinheiro, cada punhado de areia das praias, a penumbra da floresta densa, cada clareira e inseto a zumbir são sagrados na memória e experiência do meu povo. A seiva que percorre o corpo das árvores carrega consigo as lembranças do homem vermelho... Essa água brilhante que escorre nos riachos e rios não é apenas água, mas o sangue de nossos antepassados. Se lhes vendermos a terra, vocês devem lembrar-se de que ela é sagrada e devem ensinar às suas crianças que ela é sagrada e que cada reflexo nas águas límpidas dos lagos fala de acontecimentos e lembranças da vida do meu povo. O murmúrio das águas é a voz dos meus ancestrais.
Os rios são nossos irmãos, saciam nossa sede. Os rios carregam nossas canoas e alimentam nossas crianças. Se lhes vendermos nossa terra, vocês devem lembrar e ensinar para seus filhos que os rios são nossos irmãos e seus também. E, portanto, vocês devem dar aos rios a bondade que dedicariam a qualquer irmão.
Sabemos que o homem branco não compreende nossos costumes. Uma porção de terra, para ele, tem o mesmo significado que qualquer outra, pois é um forasteiro que vem à noite e extrai da terra tudo que necessita. A terra, para ele, não é sua irmã, mas sua inimiga, e, quando ele a
conquista, extraindo dela o que deseja, prossegue seu caminho. Deixa para trás os túmulos de seus antepassados e não se incomoda. Rapta da terra aquilo que seria de seus filhos e não se importa... Seu apetite devorará a terra, deixando somente um deserto.
Eu não sei... nossos costumes são diferentes dos seus. A visão de suas cidades fere os olhos do homem vermelho. Talvez porque o homem vermelho seja um selvagem e não compreenda.
Não há um lugar quieto nas cidades do homem branco. Nenhum lugar onde se possa ouvir o desabrochar de folhas na primavera ou o bater de asas de um inseto. Mas talvez seja porque eu sou um selvagem e não compreendo. O ruído parece somente insultar os ouvidos. E o que resta de um homem, se não pode ouvir o choro solitário de uma ave ou o debate dos sapos ao redor de uma lagoa à noite? Eu sou um homem vermelho e não compreendo. O índio prefere o suave murmúrio do vento encrespando a face do lago, e o próprio vento, limpo por uma chuva diurna ou perfumado pelos pinheiros.
(Pinturas do alemão Albert Bierstadt, 1830-1902)



A busca do homem por um sentido: engana-se dizendo que é uma questão de sobrevivência explorar a terra e o próprio homem (seja a força de seu trabalho, seja a custa de sua alma). No fim, voltamos para o mesmo ponto, o de desejar pertencer a algo maior, muito maior do que a nossa compreensão (e todas as conquistas materiais alcançadas não conseguem atender). Ainda não entendo a origem do mal e da crueldade, mas sinto, sinto mesmo que todos desejam fazer parte de algo maior. Essa busca não está limitada a cor da pele, ao idioma, ou condição social. Vivemos, assim, diariamente a incoerência de nossos pensamentos e atitudes; e não compreendemos o outro, quando este não deseja o mesmo.
ResponderExcluirDisseste a palavra-chave, Leila: "incoerência". Nenhum outro conceito caracteriza tão bem nossa decadente sociedade "civilizada" ocidental. Justamente a que tanto se arroga superior intelectualmente sobre as demais civilizações. Até nisso há incoerência: achar sábio possuir conhecimento sem sabedoria. A esse respeito, recomendo o livro "Ponto de Mutação", do físico Fritjof Capra, no qual defende a tese (pra mim, um fato) de que essa incoerência é o cerne da crise que vivemos atualmente, com repercussões na sociedade, na natureza... mesmo na natureza humana.
ExcluirObrigado por comentar!