segunda-feira, 6 de abril de 2020

Resenha: A Paixão de Cristo segundo o cirurgião (Pierre Barbet, 1950)

Cléofas/Loyola (2014), 240 páginas
"À medida em que apareciam os fatos, vinham estes se agrupar em um feixe de provas cada vez mais convincentes. Não somente as imagens se explicavam por uma simplicidade que já lhes consagrava a veracidade, mas, quando apareciam, à primeira vista, anormais, a experiência vinha demonstrar que eram como o deviam ser, que não podiam ser diferentes, nem tais como um falsário as teria feito segundo as tradições iconográficas correntes. A anatomia dava, portanto, seu testemunho em favor da autenticidade de pleno acordo com os textos evangélicos." (Excerto do capítulo 11, pg. 191)

Escrito por um cirurgião francês, Pierre Barbet, do Hospital de São José, em Paris, este livro contém uma verdadeira investigação forense sobre os padecimentos de Nosso Senhor Jesus Cristo, do horto do Getsêmani ao Gabatá, e, de lá, pelos cerca de 600 metros da via crucis, até o Gólgota, e então, da cruz à sepultura escavada na rocha.

Cotejando as informações das Escrituras, dados arqueológicos e históricos, análises anatômicas e fisiológicas, as marcas impressas no polêmico Sudário de Turim, Barbet apresenta sua tese, fundada inclusive em  sinistros experimentos com cadáveres e membros amputados, de como se deram, pela óptica da medicina, os sofrimentos e a morte de Cristo, bem como uma defesa da autenticidade da santa mortalha (objeto da perícope acima).

O livro se origina de uma complementação de uma obra anterior do autor, "As cinco chagas", que trata das perfurações das mãos e dos pés, pelos cravos utilizados na crucifixão, e da perfuração do coração, infligida já no cadáver de Jesus. Os dados médicos sobre essas chagas aparecem nos capítulos 5, 6 e 7. Essas chagas levantam polêmicas sobre as posições dos braços e das pernas na cruz; sobre o ponto exato de perfuração no corpo; sobre a presença ou não de suporte para os pés ("suppedaneum") ou para o períneo ("sedile"); e sobre a origem do fluxo de sangue e água que São João descreve haver fluído do golpe de lança desferido por um soldado no "lado" de Jesus.

Pierre Barbet (1884-1961), o cirurgião.
Não confundir com o homônimo,
escritor de ficção científica!
Além da introdução, do prefácio (do prof. Felipe Aquino) e anexos (fotos e diagramas), o livro se divide em 12 capítulos, sendo que é do 3º. ao 7º. que apresenta, em cada fase da Paixão de Cristo, os dados médicos correspondentes à causa da morte rápida (que surpreendeu Pilatos), que ele atribui à asfixia causada por tetania; às torturas durante o "julgamento", socos, pauladas, as lacerações da coroa de espinhos, a flagelação (por dois carrascos, de alturas diferentes!), etc.; e ao transporte da cruz. Os capítulos 8 e 9 tratam de como foi feita a descida do corpo de Jesus da cruz, seu transporte até o sepulcro e o modo de seu sepultamento.

O livro prende a atenção desde o primeiro capítulo, com a apresentação do sudário de Turim, traçando sua história até o momento em que o autor mesmo o pôde examinar, pessoalmente e também mediante fotografias meticulosas. Originalmente cético, ele chega à afirmação de que "um conjunto cerrado de provas anatômicas me faz hoje admitir e sustentar a autenticidade" do Santo Sudário. A exemplo do que ocorre também com as Escrituras, também diz que "justamente as [impressões] mais estapafúrdias, em aparência, eram as que melhor se enquadravam com a experimentação". "Artista algum teria jamais podido imaginar todas as minúcias dessas imagens, das quais cada uma reflete um detalhe daquilo que sabemos hoje sobre a coagulação do sangue, mas que se ignorava no século XIV. [...] Sob o ponto de vista anátomo-fisiológico, a autenticidade do Santo Sudário é uma verdade científica." O texto entra no estudo das palavras gregas utilizadas nos Evangelhos para descrever os "panos" encontrados no sepulcro; descreve sua composição, urdidura, etc.; mostra que não há nenhuma evidência de pintura, mas de uma impressão como a fotográfica, inclusive em parte em negativo, algo inimitável; e trata de teses sobre como poderia ter se formado a famosa imagem: seria a prova da ressurreição de Cristo?

Ainda sem entrar nos detalhes médicos, no segundo capítulo, o autor nos prende na investigação sobre o terrível suplício da crucificação, sobre o formato da cruz e como o condenado era afixado nela, bem como todo o processo dessa pena capital, que já incluía a própria flagelação, e que tem seus "toques" finais no terrível "crurifragium". São 30 páginas para nos inteirar de como foram infligidos os horríveis ferimentos que, só em parte!, ficaram retratados no sudário.

O livro traz ainda 31 ilustrações, incluindo esquemas anatômicos, radiografia de uma mão pregada!; fotos do cadáver utilizado na experimentação sobre a sustentação de um corpo fixado à cruz apenas pelos pregos; e imagens de impressões semelhantes à do sudário, por radiação, obtida com plantas. Duas das imagens são a do crucifixo de Villandre, médico e escultor, amigo do autor, que reproduz o que seria a posição real em que Jesus ficou na cruz.

Jesus deixando o Pretório (Gustave Doré, 1867-72)

Obra muito rica para os interessados em história e fisiologia mas ainda mais, e aqui está a intenção do autor, para os cristão que devem refletir sobre o mistério da Encarnação, cujo ápice foi o brutal assassinato, após o mais injusto de todos os julgamentos, de Deus mesmo feito homem. O sudário, autenticado pela medicina, nos dá a imagem de Jesus, com cerca de 1,80m e esplêndida anatomia, trucidado pelo pecado humano; e, com os vestígios de seu sangue, é a mais insigne relíquia que há no mundo. "Para quem sabe lê-la e para quem é capaz de refletir, é a mais bela, a mais emocionante das meditações da Paixão". Assim, o livro termina com uma narrativa da Paixão de Cristo, atualizada por toda a investigação forense dos capítulos anteriores. São 16 páginas. As mais difíceis para o autor, que confessadamente as escreveu banhado de lágrimas.


* * *

Quarto cântico do Servo

I
Eis que meu Servo prosperará,
ele se elevará, será exaltado, será posto nas alturas.
Exatamente como multidões ficaram pasmadas à vista dele
- pois ele não tinha mais figura humana
e sua aparência não era mais a de homem -
assim, agora nações numerosas ficarão estupefatas a seu respeito,
reis permanecerão silenciosos,
ao verem coisas que não lhes haviam sido contadas
e ao tomarem consciência de coisas que não tinham ouvido.

II
Quem creu naquilo que ouvimos,
e a quem se revelou o braço de Iahweh?
Ele cresceu diante dele como renovo,
como raiz em terra árida;
não tinha beleza nem esplendor que pudesse atrair o nosso olhar,
nem formosura capaz de nos deleitar.
Era desprezado e abandonado pelos homens,
homem sujeito à dor, familiarizado com o sofrimento,
como pessoa de quem todos escondem o rosto;
desprezado, não fazíamos caso nenhum dele.

E, no entanto, eram nossos sofrimentos que ele levava sobre si,
nossas dores que ele carregava.
Mas nós o tínhamos como vítima do castigo,
ferido por Deus e humilhado.
Mas ele foi trespassado por causa das nossas transgressões,
esmagado por causa das nossas iniqüidades.
O castigo que havia de trazer-nos a paz, caiu sobre ele,
sim, por suas feridas fomos curados.
Todos nós, como ovelhas, andávamos errantes,
seguindo cada um o seu próprio caminho,
mas Iahweh fez cair sobre ele
a iniqüidade de todos nós.
Foi maltratado, mas livremente humilhou-se e não abriu a boca,
como cordeiro conduzido ao matadouro;
como ovelha que permanece na presença dos tosquiadores,
ele não abriu a boca.

Após detenção e julgamento, foi preso.
Dentre os contemporâneos, quem se preocupou
com o fato de ter sido cortado da terra dos vivos.
de ter sido ferido pelas transgressões do seu povo?
Deram-lhe sepultura com os ímpios,
seu túmulo está com os ricos,
embora não tivesse praticado violência
nem houvesse engano em sua boca.
Mas Iahweh quis esmagá-lo pelo sofrimento.

Porém, se ele oferece a sua vida como sacrifício expiatório,
certamente verá uma descendência, prolongará seus dias,
e, por meio dele, o desígnio de Deus triunfará


III
Após o trabalho fatigante da sua alma,
verá a luz e se fartará.
Pelo seu reconhecimento, o justo, meu Servo, justificará a muitos
e levará sobre si as suas transgressões.
Eis por que lhe darei um quinhão entre as multidões;
com os fortes repartirá despojos,
visto que entregou a si mesmo à morte
e foi contado entre criminosos,
mas na verdade levou sobre si o pecado de muitos
e pelos criminosos fez intercessão.

(Isaías 52:13-15;  53:1-12)


* * *




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