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| Krishna (esquerda) e Arjuna (direita). |
O famoso livro sagrado indiano Bhagavad Gita, "A Sublime Canção", faz parte de um enorme poema épico chamado Mahabharata. Esse poema conta a história de uma guerra milenar entre dois grupos (Kurus e Pandavas), de uma mesma família, em disputa pela herança do trono. O combate se estende por milhares de anos e termina com a vitória dos Pandavas, liderados pelo príncipe Arjuna, que foi guiado por ninguém menos que uma encarnação do deus Vishnu, Krishna (Críxena).
O Gita é uma curta passagem de 700 versos dentro de uma obra com cerca de 100 mil versos, mas é considerado o Novo Testamento da literatura sagrada indiana. Em seus versos, aparece o diálogo entre Krishna e Arjuna, no qual o deus-guru ensina o desalentado príncipe a lutar sem piedade contra seus inimigos. Arjuna pergunta como poderia aniquilar pessoas de sua própria família. Krishna enfatiza o dever do homem de restabelecer a ordem no mundo.
Para quem vê apenas o cenário de guerra, pode parecer pouco espiritual qualquer lição a ser tirada dessa obra. Assim como o Antigo Testamento, porém, o poema trata de acontecimentos possivelmente reais como símbolo de uma outra guerra, que vem se arrastando por eras sem fim, entre a natureza divina do homem, o Eu em evolução, representado por Arjuna, e seu ego, todas as ilusões originadas dos sentidos, representado pelos parentes adversários. Krishna é o Eu divino plenamente realizado instruindo o homem apegado a seu ego apartado de Deus. "A alma do Bhagavad Gita é um poema de auto-redenção pela auto-realização baseada em autoconhecimento", diz o prefácio de uma edição brasileira.
Algumas passagens para reflexão...
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O homem que tem perfeito domínio sobre os seus sentidos é um sábio. Quem pensa sempre em objetos sensórios apega-se a eles; desse apego nasce o prazer e o prazer gera inquietação. A inquietação produz ilusão; a ilusão destrói a nitidez da discriminação; e, uma vez perdida a discriminação, esquece-se o homem de sua natureza espiritual - e com isso vai rumo ao abismo. Mas o homem que possui domínio sobre o mundo dos sentidos e da mente, sem odiar nem se apegar a nada, orientado pelo Eu central, este encontra paz. Essa paz neutraliza todas as inquietações, e o homem que goza de paz goza verdadeira beatitude - e acaba por superar também os males externos. Impossível a aquisição de sabedoria pela mente descontrolada; impossível a meditação para o homem inquieto! E se o homem não encontrar a paz dentro de si, como pode ser feliz? O homem sem domínio sobre a sua mente e seus sentidos é como um navio à mercê das ondas. O homem de perfeita sabedoria é o que possui perfeito domínio sobre seus sentidos com relação aos objetos sensórios. Onde para os outros reina a escuridão, lá enxerga ele claridade; e onde o profano fala em dia cheio de luz, lá o vidente espiritual não vê senão a noite tenebrosa da ignorância. Todos os rios desaguam no oceano, mas o oceano não transborda, e em suas profundezas reina imperturbável tranqüilidade - assim é o homem iluminado pelo conhecimento de si mesmo: de todas as partes o invadem as impressões dos sentidos - e submergem todas no seu Eu imóvel e imperturbável. (Capítulo 2, versos 61b-70; grifo nosso)
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Ninguém pode existir um só momento sem agir; a própria natureza o compele a agir, mesmo sem querer; pensar também é agir no mundo mental. Quem é externamente inativo, mas cede a desejos internos, este ilude a si mesmo. (Capítulo 3, versos 5 e 6; grifo nosso)
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Melhor é viver segundo a consciência própria, mesmo imperfeitamente, do que se guiar, com perfeição, pela consciência alheia; melhor é morrer no cumprimento do dever [reforma interior] do que viver com temor, à mercê de instintos inferiores. (Capítulo 3, verso 35)
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As alegrias que brotam do mundo dos sentidos encerram germes de futuras tristezas que vêm e vão; por isso, ó príncipe, não é nelas que o sábio busca a sua felicidade. (Capítulo 5, verso 22)
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Somente quem é disciplinado no comer, no dormir, no vigiar, no descansar e no divertir-se, esse auferirá do exercício de yoga [ligação com Deus] a libertação de todos os males. Somente aquele que possui domínio sobre seu mundo interno de desejos pessoais e está focalizado em seu Eu supremo, esse é um liberto (yukta) [que completou sua ligação com Deus]. (Capítulo 6, versos 17 e 18)
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Verdade é que o saber espiritual é melhor que o fazer material; porém, melhor que ambos é o amar integral - e isso requer total desapego; quem a tudo renunciar por amor, este está perto da meta final. (Capítulo 12, verso 12)
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Da íntima natureza de cada homem é que nasce o seu motivo de agir; o homem é aquilo que ele ama; o que o homem é, é isso que ele crê, e com isso se identifica. (Capítulo 17, verso 3; grifo nosso)
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Quem deixa de fazer o que deve ser feito porque lhe é penoso e ingrato, esse procede egoisticamente; o que o impele a essa desistência é aberração mental [...] Quem cumpre o seu dever peculiar de acordo com a sua íntima natureza, esse atinge a mais alta perfeição. Ouve agora, ó príncipe, como o homem que cumpre o seu dever atinge suprema perfeição. Atinge o cume da perfeição o homem que cultua Aquele pelo qual todas as coisas entraram na existência e cuja presença permeia todo o Universo - e esse culto se revela no cumprimento do dever de cada um. Melhor é cumprir o seu próprio dever, embora imperfeitamente e de boa fé, do que cumprir bem o dever alheio; quem cumpre devotadamente o seu dever é livre de pecado. (Capítulo 18, versos 8, 45-47; grifo nosso)
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E agora escuta a mais sagrada de minhas revelações: amo-te, e por isso te revelo o que é pelo teu bem. (Capítulo 18, verso 64)
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Adorar e pasmar - é só o que o homem pode fazer quando se lhe revela a luz da Divindade. (Capítulo 18, verso 77b)

A primeira vez que tomei conhecimento sobre este relato, tive essa impressão: como a narrativa de uma disputa violenta poderia ser enriquecedora? Mas, desvencilhando-me desses conceitos preconceituosos, e até mesmo arrogantes (pano para outra conversa...), tomando por referência justamente os diálogos/ensinamentos, é que me dei conta do quanto é árdua essa busca: o da mudança interior. Não é uma dispusta pequena, mas uma batalha constante... exatamente isso: uma batalha. Tem momentos, no meu caso, em que acredito que consegui, que alcancei essa trasnformação e que não mais incorrerei no erro, no vício, na falha... mas algo acontece e tudo se esvanece. Perco minha referência e me vejo afundada num mar de desesperança: tanto esforço em vão... e passo dias me sentindo deslocada, olhando as pessoas, ouvindo os dicursos ou lendo os livros eivada de revolta e com um olhar de desvalor.
ResponderExcluirMas, por alguma razão, ainda não identificada por mim, a minha alma retoma a calma... e nessa retomada, volto à batalha, com mais humildade, mais consciente das minhas fraquezas e da importância da disciplina, da reflexão, do vivenciar para poder aprender os valores que tanto almejo sentir em meu coração. Nesta caminhada, vou me perdendo e me encontrando... e é aí que vou encontrando/percebendo as mudanças, sutis...
As citações feitas deixam-me curiosa por conhecer o poema completo. Dentre tantas outras obras que desejo conhecer, ler e apreender! Mas, acredito que começando pelo Velho Testamento e continuando pelo Novo Testamento, já estarei dando um bom início nessa aprendizagem, não é? Pois a leitura é também um momento para refletir... tanto para o autor, como para o leitor.
Grata pela sugestão!