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| Ed. Martin Claret (2004), 190 páginas |
Kama Sutra foi traduzido para o inglês por três eruditos patrocinados por Richard Burton, que colaborou com traduções de manuscritos correlatos, complementares, enriquecendo o trabalho principal. Seu grande mérito foi ter trazido a obra a lume em plena Era Vitoriana, a despeito de toda a pretensa pudicícia salvaguardada nos meios aristocráticos ingleses. Havia lei contra circulação de obras "pornográficas" (o "Ato de Publicações Obscenas", de 1857) e Burton teve de criar uma sociedade, a Kama Shastra, para publicar o clássico indiano em círculo fechado de leitores a fim de escapar à censura e à cadeia. Foi impressa em 1883, privativamente, enquanto que, em gritante contradição com o espírito moralista da época, pululavam nas ruas de Londres cafetões, prostitutas de todas as idades - inclusive meninas de 9 ou 10 anos! -, usuários de ópio e ... cinco anos depois, um tal de Jack, o Estripador: um caos sexual.
| Sir Richard Francis Burton (1821 - 1890)Sexo e Filosofia indiana |
Embora se saiba pouco sobre Vatsyayana, ele próprio deixou alguns rastros com que podemos conhecê-lo o suficiente, e de quebra, à sua obra. Ele diz que "foi escrito este tratado segundo os preceitos das Sagradas Escrituras, em benefício do mundo, por Vatsyayana, então estudante de religião em Benares e inteiramente entregue à contemplação da Divindade" (grifo nosso). Esse período de sua vida é aquele em que o homem busca o Moksha, a libertação do ciclo de renascimento e morte, das "transmigrações". Segundo suas palavras, é na prática do Dharma que o aspirante a mukti (liberto) se dedica ao estudo das Escrituras. Ao mencionar o trivarga (as três ocupações mundanas do homem), Vatsyayana diz que o Dharma deve ser realizado "na velhice". Então, supomo-lo um idoso, já experiente no Kama e no Artha (as outras duas ocupações), imerso nos livros e na meditação, pois o Kama Sutra foi escrito "depois de lidas e ponderadas as obras de Babhravya e outros autores antigos, e de reflexões sobre o significado das regras por eles formuladas", num "pequeno volume como súmula de todos os trabalhos" anteriores.
Ao hierarquizar as ocupações do trivarga pondo o Kama, os prazeres, em último lugar, embora os reconheça como "tão necessários à existência e ao bem-estar do corpo como os alimentos", e depositar no Dharma o foco de sua libertação, podemos supor que "o bom e velho Vatsyayana" não fosse um praticante do Tantra, uma de várias correntes de pensamento existentes na Índia, surgido por volta de 500 d.C. O Tantra utiliza justamente o Kama em seus ritos e, contrariamente às filosofias da libertação, sequer almeja o Moksha, insistindo "na santidade e pureza de todas as coisas", que "Maya, a ilusão universal, não deve ser rejeitada, e sim abraçada", de forma tal que, afinal, "quem deseja o Nirvana?" (o estado de liberto). Segundo o Tantra, "o homem em geral tem de ascender através e por meio da natureza, sem rejeitá-la". Todavia, no rito, que em si "confirma a concepção de que tudo é divino", o aspirante deve conseguir uma "superação real [de seus] medos e desejos", "a criatura passional deve dissipar seu senso de ego". Assim, para o Tantra, "o ato sexual (maithuna), que constitui seu rito sagrado mais alto, não se realiza com o espírito de pashu", de gado, de animal humano de rebanho, e "nada disto faz com a ideia de ser um indivíduo que está satisfazendo suas próprias necessidades limitadas, como um animal que furta da natureza [...] o prazer que sente". Enfim - e é algo que nós ocidentais bem sentimos na pele -, "na medida em que o pequeno ego considera seus próprios planos os melhores, resiste rigorosamente às forças de seu substrato divino [e os deuses] se tornam perigosos para o ego, e o indivíduo converte-se em seu próprio inferno". (Grifo nosso.)
Não obstante a divergência com o Tantra quanto o fim último da vida (libertação ou integração), e a concordância em que os prazeres são "emanações de Dharma e de Artha", que quem pratica o trivarga "desfruta felicidade tanto neste mundo como no outro", Vatsyayana deixa claro em sua "Ciência do Amor" a grande preocupação que permeia ambos os sistemas filosóficos indianos: o "tornar-se escravos das paixões" e bestializar-se, pois Kama é "algo praticado até pelos animais irracionais". Sua visão holística e valoração conscienciosa de cada ocupação na vida, sem que uma interfira na outra (em termos claros: sem que a busca de prazeres, Kama, comprometa o senso de dever, Dharma, e as realizações úteis em sociedade, Artha), o velho guru lega ensinamentos cruciais para nossa viciosa cultura ocidental - próspera materialmente, decadente espiritualmente.
Para encerrar, gostaria de citar mais uma vez os comentários do indólogo alemão Heinrich Zimmer (as citações do parágrafo sobre o Tantra são dele), desta vez sobre o papel de Kama Sutra na sociedade indiana:
"Esta obra deu à Índia a ambígua reputação de sensualidade, bastante enganadora [...] A atitude dominante dos indianos, na verdade, é austera, casta e extremamente recatada, marcada por uma ênfase nas atividades puramente espirituais e por uma absorção nas experiências místicas e religiosas. O ensinamento de kama surgiu para corrigir e evitar a frustração na vida conjugal, que deve ter sido muito frequente quando os casamentos por conveniência eram a regra e os enlaces por amor constituíam uma exceção. [...] Sem dúvida havia muitos lares onde imperava a tristeza e o tédio, e onde um pouco de estudo das ciências cortesãs poderia ser de grande utilidade. Este compêncio de técnicas de ajustamento e de estimulação foi coligido para uma sociedade de emoções frias, não libertinas." - Heinrich Zimmer, Filosofias da Índia (1951), Ed. Palas Athena, 2008
(Texto publicado originalmente como apêndice da resenha de "Kama Sutra", no blog do Projeto Ler É Viver.)
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| Um sadhu (homem santo) orando com um tipo de rosário. Ao fundo, os ghat (escadaria) de Benares (Varanasi) |
Ao hierarquizar as ocupações do trivarga pondo o Kama, os prazeres, em último lugar, embora os reconheça como "tão necessários à existência e ao bem-estar do corpo como os alimentos", e depositar no Dharma o foco de sua libertação, podemos supor que "o bom e velho Vatsyayana" não fosse um praticante do Tantra, uma de várias correntes de pensamento existentes na Índia, surgido por volta de 500 d.C. O Tantra utiliza justamente o Kama em seus ritos e, contrariamente às filosofias da libertação, sequer almeja o Moksha, insistindo "na santidade e pureza de todas as coisas", que "Maya, a ilusão universal, não deve ser rejeitada, e sim abraçada", de forma tal que, afinal, "quem deseja o Nirvana?" (o estado de liberto). Segundo o Tantra, "o homem em geral tem de ascender através e por meio da natureza, sem rejeitá-la". Todavia, no rito, que em si "confirma a concepção de que tudo é divino", o aspirante deve conseguir uma "superação real [de seus] medos e desejos", "a criatura passional deve dissipar seu senso de ego". Assim, para o Tantra, "o ato sexual (maithuna), que constitui seu rito sagrado mais alto, não se realiza com o espírito de pashu", de gado, de animal humano de rebanho, e "nada disto faz com a ideia de ser um indivíduo que está satisfazendo suas próprias necessidades limitadas, como um animal que furta da natureza [...] o prazer que sente". Enfim - e é algo que nós ocidentais bem sentimos na pele -, "na medida em que o pequeno ego considera seus próprios planos os melhores, resiste rigorosamente às forças de seu substrato divino [e os deuses] se tornam perigosos para o ego, e o indivíduo converte-se em seu próprio inferno". (Grifo nosso.)
| As esculturas de maithuna (coito) no complexo do templo de Khajuraho se explicam pela filosofia do Tantra. |
Para encerrar, gostaria de citar mais uma vez os comentários do indólogo alemão Heinrich Zimmer (as citações do parágrafo sobre o Tantra são dele), desta vez sobre o papel de Kama Sutra na sociedade indiana:
"Esta obra deu à Índia a ambígua reputação de sensualidade, bastante enganadora [...] A atitude dominante dos indianos, na verdade, é austera, casta e extremamente recatada, marcada por uma ênfase nas atividades puramente espirituais e por uma absorção nas experiências místicas e religiosas. O ensinamento de kama surgiu para corrigir e evitar a frustração na vida conjugal, que deve ter sido muito frequente quando os casamentos por conveniência eram a regra e os enlaces por amor constituíam uma exceção. [...] Sem dúvida havia muitos lares onde imperava a tristeza e o tédio, e onde um pouco de estudo das ciências cortesãs poderia ser de grande utilidade. Este compêncio de técnicas de ajustamento e de estimulação foi coligido para uma sociedade de emoções frias, não libertinas." - Heinrich Zimmer, Filosofias da Índia (1951), Ed. Palas Athena, 2008
(Texto publicado originalmente como apêndice da resenha de "Kama Sutra", no blog do Projeto Ler É Viver.)


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