sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Resenha: Kama Sutra (Mallanaga Vatsyayana, 1883 - versão inglesa)

Ed. Martin Claret (2004), 190 páginas
Um livro não é um conjunto de palavras. Até mesmo as palavras só têm significado no âmbito de uma visão de mundo que simboliza na linguagem o que a cultura apreendeu da realidade. Kama Sutra tem uma enormidade de barreira semiótica a transpor para se fazer entendido no Ocidente: é que nunca foi tão abismal a discrepância da percepção da sexualidade humana entre diferentes povos como entre o antigo hindu e o ocidental contemporâneo.

Kama Sutra foi traduzido para o inglês por três eruditos patrocinados por Richard Burton, que colaborou com traduções de manuscritos correlatos, complementares, enriquecendo o trabalho principal. Seu grande mérito foi ter trazido a obra a lume em plena Era Vitoriana, a despeito de toda a pretensa pudicícia salvaguardada nos meios aristocráticos ingleses. Havia lei contra circulação de obras "pornográficas" (o "Ato de Publicações Obscenas", de 1857) e Burton teve de criar uma sociedade, a Kama Shastra, para publicar o clássico indiano em círculo fechado de leitores a fim de escapar à censura e à cadeia. Foi impressa em 1883, privativamente, enquanto que, em gritante contradição com o espírito moralista da época, pululavam nas ruas de Londres cafetões, prostitutas de todas as idades - inclusive meninas de 9 ou 10 anos! -, usuários de ópio e ... cinco anos depois, um tal de Jack, o Estripador: um caos sexual.

Sir Richard Francis Burton
(1821 - 1890)Sexo e Filosofia indiana
A psique de uma sociedade auto-incoerente só poderia acolher de forma pervertida o trabalho do guru Mallanaga Vatsyayana. E é a mesma mentalidade que caracteriza o público de hoje. Kama Sutra se tornou sinônimo de "livro de sacanagem" ou, na melhor das hipóteses, um manual de posições exóticas para a cópula. Não bastando ver-se nele apenas aquilo que convém, de fato circulam no meio editorial outros "kamas sutras", voltados exclusivamente para a excitação da imaginação de um mercado consumidor que vê o próprio ato sexual, e suas faculdades  genésicas, como produto, sujeito a "standards industriais" e a medições de desempenho: comprimento, circunferência, volume de ejaculação, volume de gemidos, duração do coito, mapas de zonas erógenas, ferramentas masturbatórias, drogas, etc. Conquanto a mente científica dos pensadores indianos cogitasse de todos esses aspectos mecânicos do sexo, a concepção ideológica é diametralmente oposta à da "filosofia" dos leitores ocidentais.

Embora se saiba pouco sobre Vatsyayana, ele próprio deixou alguns rastros com que podemos conhecê-lo o suficiente, e de quebra, à sua obra. Ele diz que "foi escrito este tratado segundo os preceitos das Sagradas Escrituras, em benefício do mundo, por Vatsyayana, então estudante de religião em Benares e inteiramente entregue à contemplação da Divindade" (grifo nosso). Esse período de sua vida é aquele em que o homem busca o Moksha, a libertação do ciclo de renascimento e morte, das "transmigrações". Segundo suas palavras, é na prática do Dharma que o aspirante a mukti (liberto) se dedica ao estudo das Escrituras. Ao mencionar o trivarga (as três ocupações mundanas do homem), Vatsyayana diz que o Dharma deve ser realizado "na velhice". Então, supomo-lo um idoso, já experiente no Kama e no Artha (as outras duas ocupações), imerso nos livros e na meditação, pois o Kama Sutra foi escrito "depois de lidas e ponderadas as obras de Babhravya e outros autores antigos, e de reflexões sobre o significado das regras por eles formuladas", num "pequeno volume como súmula de todos os trabalhos" anteriores.
Um sadhu (homem santo) orando com um tipo de
rosário. Ao fundo, os ghat (escadaria) de Benares (Varanasi) 

Ao hierarquizar as ocupações do trivarga pondo o Kama, os prazeres, em último lugar, embora os reconheça como "tão necessários à existência e ao bem-estar do corpo como os alimentos", e depositar no Dharma o foco de sua libertação, podemos supor que "o bom e velho Vatsyayana" não fosse um praticante do Tantra, uma de várias correntes de pensamento existentes na Índia, surgido por volta de 500 d.C. O Tantra utiliza justamente o Kama em seus ritos e, contrariamente às filosofias da libertação, sequer almeja o Moksha, insistindo "na santidade e pureza de todas as coisas", que "Maya, a ilusão universal, não deve ser rejeitada, e sim abraçada", de forma tal que, afinal, "quem deseja o Nirvana?" (o estado de liberto). Segundo o Tantra, "o homem em geral tem de ascender através e por meio da natureza, sem rejeitá-la". Todavia, no rito, que em si "confirma a concepção de que tudo é divino", o aspirante deve conseguir uma "superação real [de seus] medos e desejos", "a criatura passional deve dissipar seu senso de ego". Assim, para o Tantra, "o ato sexual (maithuna), que constitui seu rito sagrado mais alto, não se realiza com o espírito de pashu", de gado, de animal humano de rebanho, e "nada disto faz com a ideia de ser um indivíduo que está satisfazendo suas próprias necessidades limitadas, como um animal que furta da natureza [...] o prazer que sente". Enfim - e é algo que nós ocidentais bem sentimos na pele -, "na medida em que o pequeno ego considera seus próprios planos os melhores, resiste rigorosamente às forças de seu substrato divino [e os deuses] se tornam perigosos para o ego, e o indivíduo converte-se em seu próprio inferno". (Grifo nosso.)

As esculturas de maithuna (coito) no complexo do templo
de Khajuraho se explicam pela filosofia do Tantra.
Não obstante a divergência com o Tantra quanto o fim último da vida (libertação ou integração), e a concordância em que os prazeres são "emanações de Dharma e de Artha", que quem pratica o trivarga "desfruta felicidade tanto neste mundo como no outro", Vatsyayana deixa claro em sua "Ciência do Amor" a grande preocupação que permeia ambos os sistemas filosóficos indianos: o "tornar-se escravos das paixões" e bestializar-se, pois Kama é "algo praticado até pelos animais irracionais". Sua visão holística e valoração conscienciosa de cada ocupação na vida, sem que uma interfira na outra (em termos claros: sem que a busca de prazeres, Kama, comprometa o senso de dever, Dharma, e as realizações úteis em sociedade, Artha), o velho guru lega ensinamentos cruciais para nossa viciosa cultura ocidental - próspera materialmente, decadente espiritualmente.

Para encerrar, gostaria de citar mais uma vez os comentários do indólogo alemão Heinrich Zimmer (as citações do parágrafo sobre o Tantra são dele), desta vez sobre o papel de Kama Sutra na sociedade indiana:

"Esta obra deu à Índia a ambígua reputação de sensualidade, bastante enganadora [...] A atitude dominante dos indianos, na verdade, é austera, casta e extremamente recatada, marcada por uma ênfase nas atividades puramente espirituais e por uma absorção nas experiências místicas e religiosas. O ensinamento de kama surgiu para corrigir e evitar a frustração na vida conjugal, que deve ter sido muito frequente quando os casamentos por conveniência eram a regra e os enlaces por amor constituíam uma exceção. [...] Sem dúvida havia muitos lares onde imperava a tristeza e o tédio, e onde um pouco de estudo das ciências cortesãs poderia ser de grande utilidade. Este compêncio de técnicas de ajustamento e de estimulação foi coligido para uma sociedade de emoções frias, não libertinas." - Heinrich Zimmer, Filosofias da Índia (1951), Ed. Palas Athena, 2008

(Texto publicado originalmente como apêndice da resenha de "Kama Sutra", no blog do Projeto Ler É Viver.)

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